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Conan, o Bárbaro (1982) 

Movido por uma força bruta que une combate físico com aspectos mais místicos da mitologia de histórias medievais, John Milius dirige um Arnold Schwarzenegger inspirado em um clássico épico de fantasia do cinema americano



Em 1982, o cineasta John Milius resolveu, mais do que simplesmente adaptar, reinterpretar de maneira livre o universo da personagem Conan, presente em histórias avulsas do escritor e autor de contos Robert E. Howard, e publicadas em revistas pulp dos anos 30 e 40, com um público nichado que se interessava por histórias de espada e feitiçaria. Diferentemente do que muitos diretores fariam, Milius não estava interessado em recontar uma história específica, mas o espírito de batalha presente nesses contos, e assim foi estabelecido o tom e o ritmo de Conan, o Bárbaro.


Com pouco tempo de tela, a motivação que sustenta cada passo de Conan, guerreiro implacável cultuado na pele de Arnold Schwarzenegger é formada, durante um ataque do feiticeiro Thulsa Doom (James Earl Jones), uma espécie de Deus adorado e venerado por seu povo, a uma vila tomada por crianças, e o consequente assassinato de seus pais motivado pela fúria ameaçadora do vilão. Daí em diante, acompanhamos uma saga de muito suor e cansaço para uma recompensa que só vem no final: vingar a morte da família do único herói por quem aprendemos a torcer nesse cenário imposto e estabelecido desde o início. Não há nada diferente do que é prometido, e a relação do que o diretor quer mostrar e o que o público precisa ver é frontal. Durante esse longo processo de caminhada até que o objetivo fatalmente seja cumprido no fim, Conan faz amizade com o ágil e astuto ladrão Sabotai (Gerry Lopez) e conhece e se apaixona por Valeria (Sandahl Bergman), mas ambos são mais um suporte emocional para atingir o propósito do que personagens com raízes aprofundadas e desenvolvidas.



Para transmitir essa ideia, John Milius transformou narrativas independentes que o leitor encontrava através da literatura em um tipo de cinema épico como os melhores filmes da Hollywood dos anos 50, mas vingativo e de uma força brutal, com Arnold Schwarzenegger no comando do protagonista, um herói musculoso e taciturno. Acima de tudo, um solitário guerreiro, nunca silencioso, sempre ancorado por rancor e ressentimento, embalado por uma trilha sonora retumbante que corrobora o sentimento, e belas e imponentes paisagens que podem ser até mesmo sentidas, ainda que de longe. Dentro dessa configuração, é quase um filme de fantasia misturado com horror, mas não diria que chega a se destacar pelo rótulo de cinema de ação, porque nunca perde a noção de aventura movida por símbolos místicos como cobras, a lua e o sol e portais labirínticos que escondem o funcionamento de seitas e organizações secretas que nunca sustentam exatamente as aparências. 


Com locação na Espanha, cenário inspirado por culturas da Idade Média e pinturas do artista Frank Frazetta, a condução se deixa levar completamente pela temática medieval naturalmente imposta por Howard em seus contos, situados na fictícia Era Hiboriana, mas a abordagem, ainda que mantenha o encantamento pela magia e pelo místico, é rústica, e o tecido que reveste Conan é envelhecido, como se ele mesmo fosse obsoleto. 


A sensação com a qual ficamos é de que o longa comporta a própria definição de caos encontrada em obras como Highlander, o Guerreiro Imortal, sem deixar de ter doses de romance e trilha instrumental marcante, que às vezes deixa marcas de tensão e em outras de celebração. Arnold Schwarzenegger consegue, e conseguia já naquela época, dar conta desse escopo, suprir esse grau de expectativa. O filme me lembra Conquista Sangrenta, primeira produção de Paul Verhoeven que tem parte da produção estadunidense, por ser impiedoso e não poupar o embate físico através de espadas. John Milius, no comando, faz valer o poder de sua força física e do seu legado, mas também possui um grande mérito por ter sido ambicioso e ter realizado um filme monumental, que dá uma sensação térmica de calor e desgaste, mas que compensa o esforço de ter assistido e resistido a lutas de espada e planos ensaiados de destruição.


 

Nota do crítico:


 

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