Com Amor e Fúria (2022) | A destruição da ilusão do amor

O segundo longa de 2022 de Claire Denis vai da paixão intensa ao fim do romance, passando por toda a realidade de suas falhas



A sequência que abre Com Amor e Fúria transborda o estilo de Denis de mostrar a pele, os corpos e os desejos enchendo a tela. O casal apaixonado não se importa com mais nada a não ser se entrelaçar, se devorar, se amar, como se mais nada no mundo existisse além deles. Por alguns minutos é possível se perder na ideia de que esse é um amor forte e talvez até perfeito. Mas, em pouco tempo, o mundo real toma conta da narrativa e vem para mostrar todas as falhas e rachaduras na estrutura desse relacionamento.


Aos poucos, Denis nos mostra a verdade que se esconde atrás de toda a beleza que inaugura seu filme. Existe uma atmosfera de tensão e ansiedade que ronda a relação de Sara (Juliette Binoche) com seu ex marido, pela angústia sentida na mulher e uma trilha sonora que acompanha sempre as aparições do ex. Fica claro que essa relação do passado carrega muito mais do que parece. Assim, o longa divide Sara entre os dois homens, e a paixão intensa antes retratada com Jean (Vincent Lindon) perde o brilho enquanto o amor que ficou para trás retorna. Logo no primeiro encontro entre Sara e François, seus corpos parecem atraídos um ao outro magneticamente, o toque é inevitável, como se suas peles só existissem juntas, como um reencontro de algo que nunca mudou. Os contatos entre marido e mulher que antes preenchiam a tela agora se repetem ainda mais próximos e mais intensos, com o ex.


Ainda que a narrativa se importe em mostrar um pouco da rotina de Sara em seu trabalho na rádio, tudo parece girar em torno de sua escolha romântica. A relação entre Jean e François - de amizade e trabalho - acaba por aproximar tanto a mulher de sua relação passada que parece inevitável para ela resgatar esse amor. Toda a tensão que emoldurava a possibilidade de encontrar François se revela um amor não superado, um abandono que ainda que ela tenha seguido com a vida, não esqueceu. Então aquele casamento que parecia perfeito se mostra frágil, como todas as relações reais são. Aparecem as falhas, as brigas, os gritos, o ciúmes, a traição. De perto, nos closes apaixonados não é possível enxergar as falhas numa relação, é preciso afastar o olhar para ver a realidade. Se a paixão é intensa e os corpos querem estar próximos, a fúria é tão intensa quanto ao tentar afastá-los.


Mas não é só o casamento atual que se desmonta para nossos olhares. A relação magnética entre Sara e François, e que é retratada tão apaixonada quanto a sequência inicial, também começa a ruir. O homem mostra suas falhas, que provavelmente Sara já conhecia, mas para o espectador fica como a quebra de mais uma encenação de uma relação muito forte. Enquanto a diretora vai destruindo toda essa ilusão desse amor romântico intocável que criou nos primeiros encontros, parece que tudo que há para o destino dessa mulher é decidir com quem vai ficar, como se seguir com um ou outro parceiro fosse importantíssimo para sua vida. Ao mesmo tempo que sabemos que François já foi um jogador, tem um filho, uma mãe e já foi preso, tudo que sabemos de Sara além de seus breves momentos no trabalho são suas histórias de amor.


No ponto em que os dois homens desejam ser escolhidos por ela, ainda que no meio de muito rancor e embates, Denis faz uma escolha que não poderia ser mais atual. Se perdermos hoje todos os nossos contatos e tudo que guardamos em nossos celulares, ainda teremos os mesmos relacionamentos? A mesma água que embala a ilusão de um amor quase perfeito leva tudo que Sara tem, ao menos digitalmente falando.


Às vezes é melhor perder tudo e recomeçar do zero, sem escolhas românticas, só você e um celular vazio pronto para começar uma nova história.


Nota da crítica:


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