Close (2022) | O amadurecimento podado pela masculinidade

Com o olhar muito próximo, Lukas Dhont explora um crescimento emocional que não tem chance contra a sociedade



Ao apresentar a proximidade entre Leo e Remi, Close dá margem para o espectador interpretar como quiser essa relação, assim como quase tudo em sua história. Os dois garotos dividem um relacionamento de muito carinho que parece alheio ao mundo que os cerca. Correndo entre campos de flores, andando de bicicleta, dividindo uma mesma cama ou deitados na grama com a mãe de um deles, tudo entre Leo e Remi parece leve e amoroso, até que o mundo de fora entra em campo. A escola, o primeiro contato de socialização de qualquer infância, é aqui o primeiro impacto que abala as estruturas emocionais desses meninos. O que antes era comum entre eles se torna motivo de questionamento, e olhares antes muito doces se tornam distantes, dolorosos e tristes. Verdade seja dita, ninguém passa ileso por esse primeiro choque de realidade que é sair do pequeno mundinho particular para encontrar outros universos em outras pessoas, outros olhares e julgamentos nunca antes sentidos.


Com pouca profundidade e uma câmera sempre muito fechada em seus personagens, Dhont faz questão de não explicitar nada, não expõe os piores momentos nem explica certas questões porque não há como compreender realmente tudo que acontece e é sentido por essas pessoas. Leo não entende completamente suas emoções, por isso não há como as contar explicitamente, assim como não precisamos saber a natureza da relação entre os meninos pois nem eles a entendem por enquanto, nem precisariam entender, muita coisa ainda está borrada, por se descobrir. Mesmo que tenham por volta de seus 12 anos, os dois são retratados em pé de igualdade com os adultos, afinal, tão complicadas quanto são as emoções na infância, continuam sendo na fase adulta. Isso fica claro quando vemos a mesma dificuldade em lidar com sentimentos na mãe de Remi e em Leo. Em qualquer idade, entender e viver com o amor e a perda são tarefas dificílimas.



Mas, o grande ponto de Close é retratar os efeitos da masculinidade na socialização dos meninos. Quando confrontados por esse mundo externo, Leo e Remi reagem de formas diferentes. Leo tem uma atitude mais comum de querer mudar, se fechar e se adequar ao ser hostilizado por seus colegas. Já Remi tem uma reação mais emocional de transbordar sua dificuldade de processar tudo que está acontecendo. A violência aqui é tanto uma resposta emocional, de Remi pela frustração com a rejeição de Leo, quanto um traço normalmente atribuído à masculinidade, da busca de Leo pelo esporte de contato, por exemplo. Assim, tentando ser aceito por aquele grupo maior - que é representado pelo grupo de colegas de escola mas serve como uma alusão a um grupo muito maior e imaginário - Leo se afasta emocionalmente de Remi e se fecha, limitando sua afetividade ao que é esperado dele enquanto homem. A forma como Leo é atingido e marcado por essa masculinidade também é vista em como o menino lida com o luto, batalhando para não deixar o mundo ver seus verdadeiros sentimentos e conflitos. A reação de Remi, mais trágica, é trabalhada com muito cuidado pelo filme, deixando claro mais uma vez que não há uma resposta certa para o que está acontecendo, ainda que Leo se culpe, os verdadeiros motivos são muito particulares e a verdadeira culpa está em algo muito maior e que não podemos realmente ver, só sentir.


Além da câmera sempre muito próxima, as expressões dos meninos e suas atuações são elementos que aproximam ainda mais, nos mergulhando nessa relação. Os olhares, sempre muito amorosos e expressivos e até suas respirações nos lembram o tempo todo de como, apesar de viverem questões muito adultas, ambos são apenas meninos, com uma certa inocência que já começam a perder para o mundo. Antes de encontrarem pensamentos que os limitassem, viviam suas verdades inteiramente, sem se preocupar com nada.


A violência não é escancarada no longa, é sutilmente retratada em comportamentos tidos como comuns, mas a maior parte dela é criada fora das telas, somando as sugestões que o diretor entrega com uma realidade que já conhecemos, com o repertório de quem assiste.

A força do filme está em tudo que não é dito: uma porta despedaçada, uma respiração dividida antes de dormir ou no vazio que fica em um olhar para trás, na corrida pelo campo de flores.


Nota da crítica:


Filme assistido no 30º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade

Close chega em breve à MUBI.


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