Até os Ossos (2022) | O amor nos tempos da fome

O novo longa de Luca Guadagnino mistura romance com horror para explorar o crescimento de quem aprende a se conhecer no contato com o outro



Nos primeiros minutos, Até os Ossos pode parecer um tanto mais visceral do que realmente é. Maren (Taylor Russell), uma jovem canibal, é acobertada pelo pai durante toda sua vida, até que ele se cansa de fugir e de a proteger e lança a menina ao mundo, sozinha, para se descobrir e lidar com seus demônios. Esse desejo de comer carne humana é encarado por eles como uma maldição e Maren entra numa jornada para encontrar sua mãe e entender quem é e porque é assim. Daí pra frente temos um road movie que mistura o romance e o horror, usando a jovem para mostrar uma fase de descobertas e encontros.


A adolescência é talvez a fase onde as pessoas mais se conectam por encontrarem seus iguais. Encontrar a sua tribo é fundamental para o desenvolvimento, pessoas que gostem das mesmas músicas, tenham o mesmo estilo e pensem as mesmas coisas, ajudam a formar o caráter, a personalidade e a se descobrir, pro bem ou pro mal. Da mesma forma, em sua jornada Maren começa a encontrar outros iguais a ela, com a mesma fome que ela. O primeiro, um homem já muito mais velho, a ensina a farejar, explica como sobreviver sendo assim e como reconhece outros iguais a eles. Mas, o instinto de Maren a leva a fugir do homem, levando com ela apenas o aprendizado desse contato. É só quando seu caminho se cruza com o de Lee (Timothée Chalamet) que ela realmente se reconhece em outro alguém.


Aqui, a identificação não é visual e sim pelo cheiro, para o espectador é impossível distinguir quem é canibal e quem não é, mas para Maren, sua habilidade de farejar, que começa a se desenvolver, é capaz de encontrar outros que sejam iguais a ela. Assim, ela se une a Lee, numa conexão que ambos sentem e abraçam. Essa viagem pelos Estados Unidos, num carro com dois jovens, é uma narrativa clássica norte americana que pode lembrar diversas histórias de descobrimento, mas com um toque especial do horror canibal.


Enquanto Maren e Lee se apaixonam e se unem para sobreviver, encontram outras pessoas no caminho, se alimentam e se desentendem. Ambos encaram essa fome que compartilham como uma maldição que os isola do mundo, para Lee é algo que o faz fugir e ficar longe da família, para Maren significou uma vida muito solitária e de privações que acabou com um abandono do pai. Mas, é incontrolável a necessidade de se alimentar, o que cria embates éticos na escolha de quem será a próxima vítima do casal. Ainda que se separem por essas divergências, Maren e Lee não conseguem se afastar por muito tempo pois encontram um no outro um lugar seguro de compreensão, de sentir os mesmos desejos e medos, por se reconhecerem um no outro. De todos os canibais que encontram, eles se sentem acolhidos apenas um com o outro, já que cada pessoa decide lidar com sua fome à sua maneira.


É possível fazer algumas conexões aqui, talvez até com vícios, já que essa necessidade de comer carne humana é encarada por eles como algo que precisam fazer mas que é ruim. Como se dois jovens viciados, incompreendidos pelos outros, encontrassem conforto um no outro por entenderem a dor de querer algo que faz mal e machuca eles mesmos e os outros, que os isola de pessoas queridas e transforma suas vidas em uma fuga. Mesmo sendo temas difíceis e pesados, Guadagnino coloca o filtro do amor jovem nessa história e o romance torna tudo mais intenso e bonito, onde até o sangue, as mortes e os corpos devorados parecem mais leves, mais poéticos e menos horrorosos do que poderiam ser por outros olhares. Claire Denis e Julia Ducournau, por exemplo, já exploraram o canibalismo por outros caminhos, provocando experiências mais assustadoras, tensas e sensoriais ao expor a pele e a carne humana como elementos que podem ser sentidos e não só vistos. Em Até os Ossos, a experiência que o diretor passa coloca essas mortes e todo esse sangue apenas como peças de um todo, como o alimento inevitável dessas pessoas, focando muito mais nesse encontro, no romance e no se descobrir. Aqui a prioridade é sentir internamente, mais do que na pele.


Mas, ainda que exista o amor, o horror também é parte importante. A maldição que Maren e Lee carregam traça um caminho onde o destino deles parece ser inevitavelmente cruel, principalmente pelo tom pessimista que vai crescendo ao final do longa. Encontrar e viver uma vida normal quando se esconde um segredo terrível parece impossível, ainda mais quando os problemas e as ameaças te encontram, sentem seu cheiro de longe.


Na fase da vida em que precisa se descobrir, Maren teve a sorte de encontrar alguém para dividir as dores de ser quem é e viver um amor que a marcará para sempre, em que o outro se torna parte dela, absorvido e devorado, até os ossos.


Nota da crítica:


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