Amantes (2008) | Entre amar e ser amado

James Gray ambienta sua epopeia amorosa entre a frieza ingrata de amar e o calor seguro de ser amado.



É fácil dizer que James Gray é um dos diretores contemporâneos, especialmente no recorte norte americano, com uma das filmografias mais enigmáticas. Ao menos na minha memória e referências, não consigo me lembrar de filmes que falem sobre tanto enquanto falam tão pouco como os do diretor. Mesmo assim, ainda que polivalente, seus melhores trabalhos orbitam as dinâmicas familiares mais internas e masculinas. Pais e filhos em filmes como Z - A Cidade Perdida e Ad Astra - Rumo às Estrelas e irmãos em filmes como Fuga Para Odessa e Os Donos da Noite.


Tal fervor em explorar esse elo masculino é fundamentado em um aspecto basilar de sua linguagem, o silêncio. Às vezes reflexivo, às vezes estarrecedor, ele tem uma força muito grande nas cenas que se estendem com um diálogo não dito, mas sentido no ego de seus personagens. Todavia, em Amantes, seu primeiro filme a mergulhar no romance, Gray usa o silêncio de uma forma diferente e acha um jeito de explorar a masculinidade de um ponto de vista mais individual com ele.


Se for demais falar que esse é um filme muito mais falado que o restante de suas obras é, ao menos, mais dinâmico. Logo, a ausência de som não se dá essencialmente pela substituição da fala pelo orgulho, mas sim pela reflexão. Leonard está sempre pensando em qual momento se perdeu na jornada ou qual será seu próximo passo. Fica de exemplo a própria cena de abertura, em que sequer agradece por ter sido salvo de si mesmo. Sua quietude só se refere a ele próprio e os fantasmas que não só traz para narrativa quanto encontra nela.



Mas não vejo esse sendo, nem de longe, o melhor que a obra oferece. De fato, ela esbarra na solitude, só que faz isso ao mesmo tempo que lida com os diferentes estágios e fervores da paixão. Nesse particular James Gray alça voo e utiliza dois outros elementos muito perspicazes na hora de construir suas relações: o enquadramento que delimita dominância e a coloração que puxa e empurra o protagonista em seus dois caminhos e em como eles se influenciam. Mas vamos por partes.


Talvez esse seja um filme sobre as diferentes reações que o ser humano tem ante as diferentes circunstâncias a que é submetido no dia-a-dia, se dominante ou passivo na ótica interpessoal. Nos dois relacionamentos mostrados, Leonard com Michelle e Leonard com Sandra, o jeito que o diretor posiciona os atores em relação a câmera é totalmente diferente. No primeiro, como ele é a parte mais interessada, está quase sempre no centro do quadro, é o agente provocador. No momento em que eles se separam pela primeira vez, enquanto profere o “eu te amo” não correspondido, não só é posicionado ao meio como também está dentro de um outro recorte formado pelos pilares no topo do edifício em que conversam, já que suas ações foram limitadas e está, de certa forma, aprisionado.


Ao mesmo tempo, quando se trata de Sandra, Leonard não tem essa mesma proatividade. Aliás, é sempre coagido pelas ações da mulher e podemos ver essa delimitação logo em sua primeira interação. Ainda como meros conhecidos e filhos de parceiros de negócios, eles vão para o quarto dele, aqui o plano e o contraplano pouco elaboram fora da construção usual de um diálogo, um na esquerda e outro na direita. Em um único plano essa lógica é quebrada, quando a jovem revela que pediu para ir ao jantar apenas para conhecê-lo. Agora ela é enquadrada no centro, tem o quadro inteiro para si, sem as costas do rapaz em primeiro plano. Esse jogo entre eles é ainda mais interessante quando consumam sua atração: depois de ser pressionado por ela, o primeiro beijo acontece no canto da imagem, já que sua atitude não foi inteiramente espontânea. Mais tarde, depois de transarem, ela repousa no centro da imagem enquanto ele fica ao lado, apoiado em seu ombro.



Em uma obra que fala tanto da dúvida e indecisão do jovem em relação à duas mulheres, Gray usa esse recurso para fazer a transição. Leonard está saindo para encontrar Sandra e mais uma vez, reside ao lado do quadro. Virando a esquina, vê Michelle e acelera sua passada levemente, achando o meio da tela antes de abandonar o plano original para se encontrar com ela no metrô. Curioso pensar que nesse segundo elo a dominância passeia entre a proatividade do rapaz e a palavra final da mulher. Eles disputam esse espaço central e, nessa mesma cena, quando ele não tem coragem de abordá-la na estação, ele se reprime à beira da imagem enquanto ela o enxerga estando ao meio do quadro. Ao todo, uma construção primorosa do diretor.


Como se isso não fosse o bastante para condecorar o seu trabalho, a coloração do filme cumpre um papel tão interessante quanto na construção visual. O emaranhado de sentimentos se assume entre tons quentes e frios de uma forma bem direta, quase um teal and orange. Diferente do papel que o enquadramento tem na mise-en-scène, a cor fala diretamente sobre o sentimento de Leonard, azulado e frio em relação a Michelle (e também ao pensamento de sua ex-noiva) e amadeirado e quente em relação a Sandra. Mais uma vez, esses dois universos sempre se sobrepõem: no começo a saturação desse recurso é bem branda, mas, com o desenrolar da narrativa as duas tonalidades acham um caminho muito interessante para a tela, revezando entre as personagens e o fundo.

Quando ele se encaminha para o desfecho de sua história fica muito mais fácil de perceber a proeminência de um ou outro. Para ser mais preciso, a relação não é tão simples como Michelle em azul e Sandra em amarelo. Na realidade, a cor que se apodera do quadro é referente ao estado de nosso protagonista. Por mais que esteja voltando de um encontro com Michelle, sua casa ainda tem cores quentes para remeter ao interesse e pressão de seus pais para que se relacione com Sandra. Em contrapartida, por mais que esteja no restaurante com Sandra, a imagem fica completamente gélida e azul pela falta de Michelle em sua vida, mas presente em seus pensamentos.



O mais impressionante, e especialmente triunfante, é como ele une todos esses recursos em uníssono no grande momento do filme. Após ser rejeitado por Michelle, Leonard vagueia pela praia em um silêncio fruto da indecisão que tem sobre o que fazer a seguir. Em um plano ele caminha para o mar e o céu ainda lhe oferece um pouco de azul. Um azul de amar, pelo qual já sofreu tanto. No contraplano, vemos uma luz quente apoiando-se em suas costas. Enquanto chora, perambula do centro para o lado da imagem, nesse momento sua luva cai e ele volta sua atenção inteiramente para a mulher que ainda o espera, ao mesmo tempo, se vira. O anel que jogou fora no início dessa cena repousa na areia e é banhado pela mesma luz dourada que reluzia no personagem. Ele o resgata e, no último quadro, caminha ao meio, apenas com o amarelado das luzes da rua como companhia.


Por fim, retorna à sua casa, para as vistas de sua mãe e de Sandra, as únicas mulheres que lhe amaram nessa narrativa.


Em termos de romance, costumamos ver o primeiro amor, aquele que mais ardeu, como o elo irreparável entre duas pessoas. Em Amantes, Gray rompe com essa tratativa. Aliás, é um dos poucos que reconhece o valor que a construção de um sentimento tem, em muitos termos, sobre esse fogo que queima rápido. De fato, Leonard amou muito Michelle, mas, inevitavelmente, seu desprezo pelo rapaz fez com que ele desvanecesse de tal sentimento. Por outro lado, o conforto e interesse de Sandra lhe puxaram para perto e, justamente aí, encontrou o que tanto procurava. Não vejo esse final como um sinal de contentamento, mas sim de entrega, de entregar-se onde é bem quisto e reconhecer que o amor é uma via de mão dupla e não uma chama única. Ao invés de colher um belo fruto que está podre por dentro, ele preferiu cultivar seu próprio jardim a duas mãos e há uma beleza pouco explorada nisso.


Nota do crítico:


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