Aftersun (2022) | O universo particular de uma saudade

Em seu primeiro longa, Charlotte Wells olha para registros do passado para remontar um lado da história que a memória sozinha não consegue contar



Aftersun é como um universo particular, um recorte no tempo e no espaço, uma viagem de férias entre pai e filha que não se importa com contextos externos, é um olhar para o passado que busca respostas, ou pistas, de tudo aquilo que não foi percebido. Sophie (Frankie Corio) remonta suas lembranças com ajuda dos vídeos caseiros gravados com o pai para mostrar tudo aquilo que a imagem não conta, a memória distorce e vice-versa.


Assim como não é possível confiar totalmente em um narrador, muitas memórias também traem a realidade. Uma foto de pai e filha eterniza um momento mas não conta toda a história, a cumplicidade entre os dois traz boas lembranças para a menina, de bons momentos vividos com o pai, do beijo no garoto do hotel, dos amigos mais velhos, mas não diz o que o Calum (Paul Mescal) estava realmente sentido. É como se essa lacuna assombrasse Sophie, já adulta, que tenta conhecer o pai novamente, para além de tudo que lembra, por trás do que as imagens mostram. Há uma simplicidade na forma que Charlotte Wells entrega sua narrativa, focando principalmente em Sophie e Calum, com um olhar íntimo desse tempo partilhado e usando basicamente o hotel como cenário, Aftersun não precisa de muito para emocionar.


Ao longo do filme é possível sentir que existe uma motivação para remontar essa lembrança do passado, algo que pode ter acontecido entre pai e filha e que, aos poucos, vai sendo entendido com pistas muito sutis. A conexão entre Sophie e Calum, com ajuda da excelente atuação da menina, é fácil de se identificar. Em pouco tempo o longa nos mergulha em seu pequeno universo, nos tornando também investigadores do que Sophie está buscando. Os sinais de que o pai está passando por algo complicado vão se tornando mais evidentes e preocupantes, indo além do que a menina apenas se lembra ou de seus vídeos. É além de um olhar para trás, uma tentativa de se reconciliar, voltar a ser a criança que não percebeu o que estava errado, abraçar forte o pai antes que tudo piorasse.


Sophie adulta, começando a criar uma conexão no papel de mãe, não reflete apenas sobre os momentos divididos com o pai nessa viagem, mas também sobre seu próprio desenvolvimento, seus contatos e experiências vividos aos 11 anos enquanto vivia uma vida normal de criança, ainda que muito madura, sem notar o lado sombrio que afetava seu pai. Dessa forma, temos aqui um olhar muito carinhoso dessa relação, construído nos detalhes, de alguém que sente uma ausência irreparável. O ato de deixar a cama maior para a filha, o jeito carinhoso de a chamar, o cuidado, misturados a um certo distanciamento e apatia em alguns momentos, mas sempre com muito amor.


Ao longo da viagem o pai se revela mais triste, ainda que proteja a filha de notar seu estado, enquanto memórias e imagens se entrelaçam com pensamentos e desejos da Sophie adulta. É como se a filha mais velha tentasse enxergar o pai do outro lado, no meio de uma escuridão. No ponto alto e mais emocionante do filme, essa mistura de lembranças e imaginação cria um abraço forte no pai e o encontro de um Calum que nunca envelheceu com uma filha que ele nunca conheceu, usando a imagem para criar algo impossível de ser vivido. Com certeza uma das cenas mais bonitas do cinema de 2022.


As mesmas imagens que escondem verdades ocultas são capazes de reconstruir memórias e criar novos momentos. No mundo do cinema, o pai de Sophie ainda pode a abraçar e filmar orgulhoso a menina que não viu crescer, enquanto ela tenta superar toda a falta que ele faz.


Nota da crítica:


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