A utopia crítica

Escrever crítica de filmes é a eterna busca pelo impossível: colocar em palavras uma experiência artística



“Na história do cinema, existem cinco ou seis filmes os quais adoramos criticar somente pelas palavras: “É o mais belo dos filmes!”’

- Jean-Luc Godard (Bergmanorama, Cahiers du Cinema nº 85/Julho de 1958)


 

i·ne·fá·vel

(latim ineffabillis, -e)

adjetivo de dois gêneros

1. Que não se pode exprimir por palavras (ex.: prazer inefável). = INDESCRITÍVEL, INDIZÍVEL

2. [Figurado] Encantador, delicioso, inebriante (ex.: perfume inefável).

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa


 

O prazer raramente pode ser colocado em palavras. Em um mundo que “odeia o prazer”, como já disse Paulo Leminski, são constantes as tentativas de romper com a beleza do silêncio das sensações. O ódio ao prazer não precisa ser muito explicado: da censura ao orgasmo ao ódio contra tudo o que se manifesta como expressão de feminilidade, vivemos em uma cultura que reprime a liberdade de Lilith e que prende Dionísio em uma estátua de mármore. Como resultado das formas de produção e estilos de vida potencializados pela Revolução Industrial e que avançam com o frenético capitalismo tardio, que angariaram excessos, conforto e um culto cada vez maior à racionalização (que é nada mais que a religião daqueles que “mataram Deus”), assassinamos diariamente nossas potências sensuais e emocionais, em troca de uma arrogância intelectual superficial: as fantasias sexuais foram limpas pelas explicações psicanalíticas; a arte foi sendo elevada à “alta cultura” à medida que se afasta do lugar “primitivo” das sensações e alcança o “iluminado”, abstrato e esquizofrênico paraíso platônico da razão.


Na arte, assim como no prazer, os silêncios podem ser os momentos mais sublimes (como já disse Susan Sontag em um de seus ensaios). Não que não se deva falar sobre arte, mas é preciso entender o que e como falar. O trabalho do crítico é o exercício de uma utopia: transpôr para a palavra o inefável. O crítico é, por essência, uma anomalia, um rompimento inevitável com o caráter sensual da arte. Ainda assim, pode ser seu potencializador. Veja: houve um tempo, muito distante, em que não nos dividíamos entre uma mente que pensa e um corpo que obedece. O “pensamento”, a “razão”, não eram algo: já fomos unos como um tigre é - um tigre apenas sabe ser um tigre; nós pensamos para ser humanos. A racionalidade é o elemento primordial de ruptura com a unidade que um dia já tivemos. Porém, somente a partir dela é que, hoje, podemos recorrer à atividades que nos trazem de volta ao paraíso perdido da unidade corpo-mente: o exercício físico, as artes marciais, a dança, o sexo, etc. Da mesma forma é a crítica de arte: o pensamento sobre arte é uma invasão à natureza essencialmente sensual dessa modalidade da expressão humana. Se a ciência manifesta-se por métodos de experimentação e de reflexão, e a filosofia pelo pensamento e pela razão, a arte é, em sua gênese, uma expressão da sensibilidade humana. Seu exercício crítico é, como a razão para a unidade do ser, um elemento de ruptura; e, ainda assim, é essencial para que possamos recuperar o entendimento profundo e sensível do que é arte. E essa crítica, o pensamento sobre estética, são, com as redes sociais e a democratização do discurso, mais necessários do que nunca para que possamos constantemente redescobrir nossas sensibilidades.


E por que digo tudo isso? Pois acredito que é possível afirmar, sem cair em exageros, que a soberba está mais presente do que nunca nos territórios dos comentários e críticas sobre arte. Existe uma necessidade cada vez maior por parte da intelectualidade e até mesmo pelo grande público em procurar “entender” o que uma obra “quis dizer”. E o “crítico”, em todas as mídias em que pode aparecer (Youtube, Instagram, Facebook, Letterboxd, Medium, etc.), agora é aquele que tem as respostas iluminadas para os enigmas que o autor teria deixado na obra. A arte virou uma espécie de jogo, em que alguns poucos iluminados aparecem para decifrá-la, vencê-la. Diante do misterioso, profundo e inebriante mar que um filme, um livro ou uma pintura podem ser, os maus críticos enxergam um peixe a ser pescado e vendido por um punhado de aplausos virtuais. Os maiores críticos do mundo e da história, porém, como Susan Sontag e André Bazin, já entendiam que uma obra não “fala sobre algo”, ela é algo. Ela faz algo. E os fenômenos gerados pela arte jamais poderão ser dominados pela arrogância da interpretação, que busca substituir os elementos factuais da obra por um conteúdo “omisso” - as análises de filmes que apontam “mensagens” deixadas pelo diretor (claro, a serem decifradas pelo criador do conteúdo) são um grande exemplo disso. É só abrir o Youtube e procurar por vídeos de algum lançamento minimamente mais cult que você consegue encontrar diversos desses. Mas, como Sontag afirma, “a interpretação torna a arte dócil, submissa”. O mau crítico é este, que quer domar a fera criativa, a potência de vontade que habita toda obra artística.



A interpretação é a vingança do intelecto contra a arte

- Susan Sontag


É também como André Bazin certa vez escreveu: “A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto da obra de arte”. Tive o primeiro contato com esta frase e, em geral, com esta ideia, a partir do querido professor Philippe Leão (que também considero e recomendo como um ótimo exemplo de crítico de cinema). O que ela nos revela é que a função do crítico de arte é relatar sua experiência com a obra propondo possibilidades de relacionar-se com ela a partir de uma sensibilidade própria, transmutando seu conhecimento sobre estética e sobre a linguagem da arte que analisa em uma ideia específica. Fica claro, então, que tão pouco o verdadeiro crítico está interessado em "explicar" uma obra, como também não está ali para "revelar" as "verdadeiras intenções" do artista. Isso pouco importa. A relação do crítico é com a obra de arte no mundo, quando um filme ou livro já tomou a posição de anjo caído, distante de onde foi criado. No mundo, a obra guarda a imagem e semelhança de seu criador, mas este já não tem mais controle sobre ela.


Por tudo isso, eu diria que a matéria prima de um crítico como o de cinema não está nas “intenções do diretor do filme”, mas sim no elemento estrutural de uma peça cinematográfica: a dialética. Isso porque todo filme é composto por dialéticas - dois elementos distintos mas não necessariamente opostos que, colocados em embate, geram uma terceira coisa que não existiria isoladamente. É comum, por isso, ver, de forma natural, a percepção de tais dialéticas nos trabalhos dos grandes críticos. André Bazin, por exemplo, aponta para o amálgama entre uma neutralidade moral realista e a denúncia social comunista que formam Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica; ou, ainda, para a mistura entre atores e não atores que compõem o elenco de muitos filmes neorrealistas, criando obras potencializadas pela honestidade inocente do não-ator junto à experiência dramática do ator profissional. Susan Sontag vê em Bresson uma austeridade emocional que serve não para negar, mas para potencializar a catarse ao final - a ausência da emoção ao longo do filme descobrindo um ápice melodramático em sua última cena, de modo a concentrar toda a explosão sentimental em um único momento; austeridade x catarse, dialética. Jean-Luc Godard percebe em Ingmar Bergman uma "eternidade do instante", quase como se o diretor criasse em seus filmes meditação a partir de um instante efêmero -


Um filme de Ingmar Bergman é, se quisermos, 1/24 de segundo que se metamorfoseia e se estica durante uma hora e meia. É o mundo entre dois piscares de olhos, a tristeza entre dois batimentos de coração, a alegria de viver entre o bater de duas palmas.


Todo grande crítico é tão apaixonado pela arte sobre a qual fala que se torna impossível negar sua estrutura, sua forma, sua superfície sensual. É assim que o bom crítico mergulha em águas profundas, cercando-se do prazer das perguntas ao invés da frustração das respostas: buscando compreender o que torna uma obra exclusivamente artística e não outra coisa - a experiência da arte em sua essência, que é sensorial, emotiva, sensível. Afinal, a solução dos mistérios da vida é quase sempre mais decepcionante do que contemplá-los em sua origem indecifrável. É dessa forma, profunda, que conhecemos e que nos apaixonamos cada vez mais por nossas sensibilidades - ultimamente perdidas entre os muitos conteúdos sobre arte superficiais, insossos, inconvenientemente racionalizantes ou puramente descritivos, que alguns ousam chamar de crítica. Porém, a humildade do bom crítico diante da grandiosidade da arte nada tem a ver com passividade. Ao contrário da covardia arrogante do mau crítico, que não faz nenhum tipo de enfrentamento real à obra que analisa, o verdadeiro crítico confronta a criação do artista com sua ideia, com sua sensibilidade particular. Assim, na maior das dialéticas mágicas da arte, o autor criador e o autor crítico geram um terceiro elemento a partir do embate entre criação e experiência. Somente daí surge a verdadeira crítica. E com ela se faz a história, a teoria e a linguagem das artes, especialmente do cinema (visto que a crítica cinematográfica tem, desde o início da sétima arte, papel fundamental no seu desenvolvimento).


Entre Midgard e Asgard, o crítico é o guardião responsável pela ponte Bifrost, que liga o mundo divino das criações ao mundo sensual das experiências. O (bom) crítico é o melhor intermédio entre uma obra e o mundo.