A Tragédia de Macbeth (2022)

Joel Coen encontra a maneira mais cinematográfica possível de transpor o épico inglês sem deixar de lado sua veia teatral e oferece uma experiência que dialoga com o bem, o mal e a culpa através da linguagem.



Os irmãos Coen são diretores de cinema antológicos. Não só por sua memorável filmografia com clássicos que prevalecem no imaginário coletivo e crítico como também, aproveitando o outro significado do adjetivo, por frequentemente orbitar em uma mesma coletânea de temas, ambiências e construções em suas obras. Via de regra, aproveitam os universos mais fortes do consciente cultural norte americano, seja os dramas hollywoodianos, a paranoia conspiratória típica da espionagem ou o bom velho oeste, para desenvolver uma narrativa. O leque de façanhas que obtém com isso é fantástico. A título de exemplo, enquanto Onde Os Fracos Não Têm Vez desconstrói os mitos do faroeste, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? se preocupa com o cômico e os acasos de trazer a Odisséia para o interior estadunidense.


É um cinema de contos, quase fechado em capítulos (e a Balada de Buster Scruggs comprova isso). Logo, desenvolveram uma unidade de linguagem bem marcante para sustentar essa perambulação pelo país: uso frequente de grande angulares, movimentação de câmera firme e um apreço sem igual pelo papel de coadjuvante são alguns de seus traços mais corriqueiros. Tendo isso em vista, A Tragédia de Macbeth de Joel Coen, primeiro trabalho dele sem Ethan sequer como produtor, é um passo destoante e, justamente por isso, incrível de seu trabalho. Cruzando o oceano para encenar um dos maiores, senão o maior clássico shakespeariano, ele recosta seu conto americano para abraçar o épico inglês.



Embora essa não seja a primeira vez que Joel assina a direção sozinho, o lançamento traz a sua proposta mais ousada até então e, por mais grandioso que seja o conteúdo em si, é na forma que alça seu vôo mais alto. A linguagem do filme é uma simbiose entre cinema e teatro, se apropria deste para construir o quadro, elaborar um cenário mais representativo do que realista e exalar força com seu texto retumbante, e daquele para construir a ponte entre as mídias, exalar a falta de cor de uma trama desoladora (que só é possível em uma transposição audiovisual) e agregar dinamismo à narrativa.


Dá para se dizer que, ao invés de puramente adaptar o teatro para película, sua tentativa foi recriar a experiência teatral em si. Quando Macbeth (Denzel Washington) marcha rumo ao seu tão temível ato, por exemplo, ela o segue pelo corredor enquanto profetiza um monólogo horripilante. Dessa forma, une as artes para alcançar uma interação que só pela 2ª arte seria impossível. Em suma, há uma preocupação em achar um modo cinematográfico de transpassar os sentimentos oferecidos pelo palco. A câmera é ativa, se movimenta para achar ângulos novos e explorar a tridimensionalidade de um set construído com uma ideia bidimensional de visualização, encontrando através do cinema, a profundidade imaginária por detrás dos tapumes da cenografia do teatro. De quebra, quando adentra a sala, empunha a adaga e fecha a porta, um blackout toma conta da tela, o equivalente a saída do ator de cena.


Do mesmo modo, a luz expressionista não se limita a emular os holofotes com iluminação direta, vai muito além e, aliada com a motivação gótica da arquitetura, desenha os planos do filme em uma relação de bem e mal muito característica. Coroando a citação com mais um exemplo, quando Banquo (Bertie Carvel) adentra o círculo iluminado para entregar suas dúvidas e questionamentos sobre a profecia que caiu sobre si e seu amigo vemos nitidamente essa relação: ele, bom ao ponto de ser temido por Macbeth, está rodeado por maldade e vaga pequeno com suas nobres intenções.



Nessa linha de sobreposição dos formatos, a entrega do texto pomposo pela atuação é muito poderosa. Lembro que, ainda na escola, ao ler uma história ou outra do bardo inglês, as firulas das falas e ações me soavam muito enfadonhas, então para minha contraparte adolescente ouvir Denzel Washington (um dos melhores atores de sua geração) bradar “Sopre, vento! Venha, destruição!” foi uma completa revolução. O mais legal é que as falas não são simplificadas pelo bem do entendimento da audiência e, assim como ler Shakespeare, assisti-lo se torna também um desafio. Washington e Frances McDormand alinham suas performances com o principal tema de seus personagens, a culpa, definhando emocionalmente, já que perderam todas as relações humanas e calorosas que tinham em prol da ganância, sobrenaturalmente, aproximando-se das forças do oculto em troca de conhecimento, e fisicamente, ela desenvolvendo um sonambulismo que lhe leva ao descanso eterno e ele um orgulho pelas profecias que lhe custa a cabeça.


“Atos desnaturados geram problemas sobrenaturais”

É fácil sentir o sopro de inovação em uma carreira que forneceu tanta qualidade justamente por investir na originalidade. A fantasia medieval, assim como a ficção científica, é um gênero lúdico, com uma potência surreal que perde, em parte, sua ousadia e delírio ao se chocar com os interesses hollywoodianos de romance histórico no cinema atual. Andando ao lado de alguns bons exemplares recentes, A Tragédia de Macbeth é um expoente de retomada da inventividade no uso da linguagem neste gênero, esquecendo o realismo para ressaltar temas e maneirismos e deixar que todos os aspectos da 7ª arte conversem com o espectador, não só roteiro. Afinal, é uma fantasia.


Nota do crítico:


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