A Religiosa (1966)

Jacques Rivette articula o drama trágico de uma mulher cuja necessidade pela vida pavimentou seu caminho em direção à morte.



"O ódio ao 'mundo', a maldição dos afetos, o temor da beleza e da sensualidade um Além inventado para melhor caluniar o Aquém, no fundo um anseio pelo nada, pelo fim, pelo descanso, pelo 'sabá dos sábas' - tudo isso, juntamente com a incondicional vontade do cristianismo de aceitar apenas valores morais, sempre me pareceu a forma mais inquietante e perigosa entre todas as possíveis formas de uma "vontade de declínio, no mínimo um sinal da mais profunda doença, fadiga, desalento, exaustão, empobrecimento da vida - pois diante da moral (em especial a cristã, ou seja, a moral incondicional) a vida tem de estar continuamente, inevitavelmente errada, porque a vida é algo essencialmente amoral."

- Friedrich Nietzsche


O diretor Jacques Rivette inicia A Religiosa anunciando que não pretende criar "generalizações" das ordens religiosas com seu filme. Ou seja, não há um intuito materialmente crítico em seu fazer. As palavras de Nietzsche que utilizo ao iniciar esse texto, porém, pautam-se numa generalização dos dogmas cristãos de maneira crítica (mas é bem verdade, arrisco dizer, que a essência de qualquer manifestação da moralidade cristã é a negação da vida). O que ocorre é que o filósofo alemão precisa da crítica e da generalização para provar seu ponto filosoficamente. Entretanto, para atestá-lo de maneira artística, a partir da experiência estética, o caminho não precisa (ou não deve) ser feito por meios de julgamento filosófico.


Jacques Rivette reconhece isso ao trazer em A Religiosa não um tratado crítico às instituições religiosas (e prontamente pedir a seus espectadores que assim também não o façam), mas a tragédia pessoal de uma mulher cheia de pulsão de vida e que, por isso, jamais caberia num convento. Porque, na realidade, nenhuma personagem no filme que não recuse sua sensualidade, seus afetos e desejos, enfim, sua matéria, consegue sobreviver à moralidade religiosa - Suzanne (Anna Karina), Mme de Chelles (Liselotte Pulver), Thérese (Yori Bertin) ou o padre vivido por Francisco Rabal - sendo mais fácil o exílio moral para compreendê-las, visto que a humanidade é inexplicável diante do ascetismo da vida clerical.



Assim, elabora-se o drama de Suzanne: sua recusa à rotina recatada do convento resulta de um desejo pulsante por conhecer o mundo, a vida da qual sempre foi privada. Enquanto prendem-na num convento, ela está sentenciada à morte em vida. Especialmente no primeiro convento as imagens de morte são muitas: da própria elaboração dos cenários de Rivette, sempre interiores, como se Suzanne estivesse vivendo em catacumbas, cercada por pedras nos chãos e paredes lúgubres. Quando as outras freiras começam a considerar a inadequação de Suzanne como uma possessão demoníaca, vemos em muitos momentos seu corpo largado no chão como que inerte, seu rosto pálido como o de uma morta, e seu vagar pelo convento como uma fantasma. A própria direção formal de Rivette delimita tudo o que está na cena à uma ordenação rigorosa que é insuportável para a protagonista. Tamanha rigidez inclusive é estranha à própria Anna Karina, que tem em sua imagem poder, beleza e a liberdade da França sessentista como características marcantes. Dessa maneira, a inadequação está na própria escolha de atriz como protagonista do filme, visto a impossibilidade de dissociar alguns artistas de suas personagens.


Suzanne, então, parece estar sempre a um passo de enlouquecer a partir de certo ponto, até conseguir sua transferência para outro convento, este supervisionado pela Mme de Chelles, uma Madre Superiora (figura de maior autoridade dentre as freiras de um convento), que demonstra forte interesse afetivo e sexual em Suzanne. A Madre chega até mesmo a questionar, de forma branda, se Suzanne nunca sentiu tesão, se seus sentidos não tomam seu sono e seus sonhos. Vemos, nesse diálogo, o quão a menina foi privada de seus sentidos e pulsões por sua família rigorosamente conservadora (que, no caso, não caberia chamar exatamente assim visto que este era o padrão da época).


Inclusive, existe de certa forma nesses apontamentos quanto aos padrões e crenças "obscurantistas" da época e seus resultados nocivos um certo resquício iluminista da obra original de Diderot (pois o filme é uma adaptação do livro do enciclopedista). Mas enquanto a intenção de Diderot era o "esclarecimento" de tal obscurantismo, Rivette utiliza as contradições do fundamentalismo religioso para mergulhar na tragédia de sua protagonista com uma direção bastante direta, que faz uso apenas pontual de elementos extra-diegéticos (como a trilha sonora). Rivette se atém ao imediatismo do momento filmado, e essa crueza é o bastante para mostrar a inadequação de Suzanne pelo "acontecimento puro", aquilo que André Bazin chamava de "fato".



Chega a ser curioso, dentre as influências iluministas da obra original e o realismo baziniano, perceber uma visão essencialmente medieval da paixão como adoecimento da alma. É o que enxergamos em Mme de Chelles e no padre que se apaixonam por Suzanne: ambos são levados ao adoecimento perante sua paixão, e mesmo à loucura (especialmente dentro da ordem religiosa, privados absolutamente de seu desejo - sendo aí uma visão mais propriamente freudiana de desejo reprimido). Mas, mais uma vez, isso revela a incapacidade que o cristianismo tem de lidar com as patologias da alma humana: necessitando da "pureza" dos céus, não se busca uma "cura" para a alma, mas sim a inexistência dos sentimentos que enervam e adoecem, a ignorância de seu poder diante da sensibilidade humana. Como ignorá-los é impossível, é mais fácil acusar as paixões humanas de serem obra de Satanás.


Mas eu estaria sendo injusto, inclusive com a minha proposta nesta crítica, se apenas acusasse a religiosidade do convento e da ordem clerical como a única fonte dos sofrimentos de Suzanne. Até porque, ao final, ela consegue escapar para o mundo e, ainda assim, encontra apenas na morte um caminho de fuga final da prisão que foram seus destinos em vida. Mas isso pois Suzanne percebe, no mundo para além do convento, que era impossível fugir da moralidade incondicional. Sua vida estava condenada a ser, aos olhos alheios, necessariamente errada.


Diferentemente de uma busca iluminista pelo "esclarecimento" das mazelas morais e sociais nas quais Suzanne estava inserida, Rivette concretiza o acontecimento trágico no suicídio da personagem, tornando claro o sofrimento da jovem: privada de sua Vontade e Potência, necessitando viver sob o véu da moral inexorável, a morte é o único caminho possível - pois sua vida já lhe havia sido negada. Tanto é o caminho natural que Suzanne concretize o fim de sua morte em vida através do suicídio literal que Rivette de forma alguma espetaculariza o momento, escolhendo filmar como o mais cotidiano acontecimento tal qual qualquer outro ao longo do filme.


Nota do crítico:


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