A Negra De... (1966)

A ancestralidade negra e a luta anticolonial sob o olhar sensível do diretor senegalês Ousmane Sembène.



Aqui na Cine-Stylo, nós redatores escolhemos os filmes sobre os quais queremos escrever, isto é, não trabalhamos com imposições na redação. Dessa forma, nosso trabalho se torna um tanto mais complexo, porque agora, enquanto críticos, nosso papel não diz respeito apenas a escrever adequadamente sobre filmes, mas também sobre a escolha quanto a quais filmes escrever sobre. Evidentemente, essa escolha é simbólica, política e diz respeito à nossa função. Por isso, ao terminar A Negra De… (1966), de Ousmane Sembène, sentia-me impelido a escrever algumas palavras a respeito dessa obra situada no período do pan-africanismo, em plena Guerra Fria e sob um contexto de renovação cultural (e cinematográfica) pelo mundo: floresciam as nouvelles vagues, na França, Alemanha, Brasil, Tchecoslováquia, Japão, etc.


O que me convida ao exercício crítico neste filme de Sembène é a delicadeza de seu discurso e a sofisticação de sua mise-en-scène, que se unem para representar a ancestralidade de um povo preto colonizado e que, neste novo contexto mundial, luta fervorosamente por sua emancipação. Toda arte surge de um desejo pela liberdade de “habitar poeticamente o mundo”, mas essa arte de viver só é possível sob as condições mínimas para que se possa usufruir da vida e de suas prazerosas inutilidades. Colonizados, escravizados, sob a miséria, um povo precisa equilibrar-se numa corda bamba entre a sobrevivência no sentido mais primitivo da palavra e a pulsão vital artística natural. Com isso, Sembène concretiza na tela não só uma das representatividades negras mais poderosas da sétima arte, mas a promessa de que o povo oprimido do Senegal irá atormentar os colonizadores com suas máscaras ancestrais, com seus aterrorizantes impulsos dionisíacos, com uma florescente arte cinematográfica nova em seu sentido mais direto.



A Negra De… nos apresenta Diouana, uma mulher negra que vivia em uma vila em Dakar, no Senegal. Em busca de emprego, ela vai cuidar dos filhos de uma mulher parisiense, que mais tarde a convida para ir com ela à Paris, a princípio também para cuidar das crianças. Porém, já na França, Diouana se vê obrigada a fazer todos os serviços domésticos: da limpeza à cozinha e, ainda, cuidar das crianças. O drama da protagonista de A Negra De… é o da escravidão doméstica. O filme, entretanto, está a todo momento orientando-se entre a esfera individual representada no drama a rigor do filme (a história de Diouana) e a esfera coletiva que representa uma ancestralidade negra colonizada. A relação mais direta e óbvia que pode ser feita é de que a escravidão doméstica vivida por Diouana remete à escravidão colonial sofrida pela população negra. Os colonizadores, em ambos os casos, são os brancos europeus. Daí então, muitas referências à cultura preta do Senegal surgem, sendo a mais emblemática a máscara que Diouana dá a seus patrões: dentre as crianças da vila, esta máscara era utilizada de maneira lúdica, trazendo uma herança ancestral negra. Pelos patrões, ela é colocada em sua parede branca como mero objeto de decoração, no melhor estilo “obra de arte Romero Brito.” Se antes a máscara era carregada de símbolo, não utilidade, tal qual uma máscara dionisíaca que embebe seu usuário de uma potência ancestral, nas mãos dos parisienses ela adquire utilidade decorativa, sendo desfeita de sua potência.


Daí que quando Diouana toma consciência da exploração que sofre, há a necessidade de recuperar a máscara, lutando contra sua patroa por ela, como um retorno ao vínculo com seu lar e os símbolos que o fortalecem. Ao final do filme, após Diouana perceber-se sem possibilidade de fugir de sua situação de escravidão e suicidar-se na banheira de seus patrões, a máscara utilizada por ela ganha de vez a dimensão simbólica coletiva: o patrão de Diouana vai à vila onde ela vivia com sua família oferecer dinheiro para sua mãe, que recusa. Todo o caminho do homem até o aeroporto, a partir daí, é feito sob a sombra de uma criança que, utilizando a máscara, persegue-o, como um fantasma não só de Diouana mas de todo aquele povo negro colonizado. Se durante boa parte do filme, em Paris, a protagonista e sua máscara eram elementos estranhos diante do cenário e personagens brancos, ao final é o patrão parisiense que aparece deslocado do ambiente, sempre observado pela população da vila. O menino que o segue atormenta-o profundamente, levando ao belíssimo plano final carregado de potência semântica e dialética: o garoto é filmado retirando a máscara, de modo que seu rosto, negro, fica visível na tela. É o close up absolutamente sensível de um rosto preto, de uma criança que é símbolo da esperança pelo futuro da luta anticolonial e antirracista, que, ao mesmo tempo, carrega consigo a máscara de sua ancestralidade. Passado, presente e futuro em um único plano, resistência e sofrimento individual e coletivo. Uma das imagens emblemáticas do pan-africanismo, carregada de potência pela sensibilidade de Ousmane Sembène em sua mise-en-scène.



Nota do crítico:


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