A Mãe (2022) | O cinema que dá voz ao ativismo

Longa de Cristiano Burlan concentra as histórias e as dores de muitas mães brasileiras através de Marcélia Cartaxo, beirando a linguagem documental para dar rosto e nome a uma multidão tratada como estatística



Não é de hoje que o diretor Cristiano Burlan, que cresceu em São Paulo, retrata as tragédias das periferias em seus filmes, principalmente colocando suas próprias dores em documentários sobre a morte do irmão e da mãe. A Mãe vem nessa leva dos últimos anos - principalmente de 2022 - na qual o cinema brasileiro vem lutando para sobreviver e mostrar suas feridas mais recentes, com filmes que tratam de assuntos que não são de hoje, mas se tornaram ainda mais urgentes. Não é à toa que o longa de Burlan fala de ditadura e de como ela segue existindo nas mãos da polícia militar, é o retrato de algo que não foi superado, dos filhos desaparecidos e mortos há décadas, mas também dos que ainda morrem hoje.


Mesmo que seja um trabalho de ficção, a linguagem do diretor se mistura ao documentário em diversos momentos. Isso porque A Mãe não é apenas a história de Maria e seu filho, mas sim uma maneira de dar rosto e nome a milhares de mães e filhos que a justiça vê apenas como números e estatísticas, transformando seus lutos em batalhas. Um dos grandes focos aqui é o movimento das Mães de Maio, uma organização de vítimas da violência e do extermínio no estado de São Paulo, representado no filme pela ativista Débora Maria da Silva, em uma cena com toda a forma documental e um texto bem didático. Esses momentos mais explicativos acabam tirando um pouco a carga dramática da narrativa, principalmente pelo texto que acaba não fluindo bem misturado às atuações e aos momentos mais ficcionais, mas com certeza carregam muita importância. Em outro momento, é Helena Ignez quem fala um pouco sobre as Mães da Sé, trazendo uma das atrizes mais importantes do cinema brasileiro para lembrar das cicatrizes políticas que o Brasil andou cutucando muito nos últimos anos.


Marcélia Cartaxo carrega com muita força essas histórias, com o semblante duro de quem luta pra sobreviver. Como uma mãe batalhadora da periferia, longe de sua terra natal, demora até conseguir sair da casca dura e se emocionar com o desaparecimento e morte do filho. Assim como muitas mulheres, ela não tem como escolher não ser forte, o que é muito bem traduzido pela atuação e a atmosfera fria do longa. A câmera constantemente ambienta seus personagens em planos abertos, colocando a periferia em foco, e se aproxima - na maioria das vezes - apenas quando quer nos focar em Maria ou em outras mulheres, e no que elas tem a dizer, com closes em seus rostos.


A presença feminina é muito importante, e colocando suas falas em foco é que o diretor mostra sua atenção ao tema. Além de dar espaço para a ativista falar de sua luta e colocar uma figura importantíssima do cinema brasileiro para falar de outro movimento relevante, o longa coloca como figura de apoio à Maria outra mulher, também nordestina, que a encontra para ser assistência dessa mãe a caminho do IML para reconhecer o corpo do filho, toda sustentada em sua própria força, sem nem conseguir demonstrar algum abalo.


Assim, A Mãe não é apenas uma ficção, mas um espaço para humanizar as periferias de São Paulo, alertando sobre um grande e único vilão: a polícia militar. O filme dá um lugar para lutas necessárias mostrarem suas caras e suas pautas, através da pequena história de Maria e Valdo, retratando como o estado e a justiça abandonam essas mães que não tem outra escolha senão buscarem elas mesmas respostas e apoio umas nas outras. Ainda que tenha momentos mais travados e explicativos, é um trabalho com muita força por tudo que representa.


A cena do assassinato ser filmada em plano aberto pode ser um distanciamento que procura não expor uma vítima, nem fetichizar a violência, mas também pode dizer que para muitos essa é uma realidade que nunca foi vista de perto, mas que precisa urgentemente ser conhecida e compreendida para ser combatida. A violência militar não acabou, mas tem que acabar.


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria

A Mãe estreia nos cinemas brasileiros dia 10 de novembro.


Nota da crítica:


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