A linha tênue entre a ficção e a não-ficção com Abbas Kiarostami e Eduardo Coutinho

Sempre gostei de pensar sobre o Cinema como uma arte que reflete a vida. A arte que se destaca por sublinhar os momentos mais sublimes que nos escapam aos olhos no dia-a-dia tão distrativo, que ressalta com maestria a beleza dos detalhes de acontecimentos aparentemente banais e que nos pequenos detalhes parece nos escancarar lições preciosas sobre a vida - sem que pareça nos querer lecionar sobre absolutamente nada.



Sempre vi a vida como um grande acontecimento feito de pequenos momentos, em que às vezes uma troca de olhares é capaz de alterar destinos inteiros. Por essa razão, um cineasta ideal sempre foi, ao menos para mim, aquele que mais soubesse valorizar os detalhes e que mais soubesse fazer de coisas muito simples um momento grandioso. Alguém que enxergasse nas entrelinhas dos momentos e conversas mais prosaicas, algo que fosse eterno, que pudesse ser lembrado para além da vida mas que naquele momento tenha sido algo bastante natural, dito como se não fosse grande coisa.


Eu lembro muito bem que a primeira vez que tive essa sensação foi quando assisti ao meu primeiro filme do Eduardo Coutinho. Grande obra e clássico absoluto do Cinema brasileiro (e mundial), Cabra Marcado Para Morrer se faz eterno porque é um filme sobre um grande (e irremediavelmente triste) acontecimento da história do Brasil, mas detalhado em tela pela primazia das coisas mais simples. Cabra é um filme sobre a Ditadura, claro, mas, essencialmente, é uma obra sobre o desmoronamento de uma família, a fuga de uma mulher, mãe e líder perseguida, sofrimento dos filhos, sobre comunidade, reencontros dolorosos e pessoas reais.


São pequenos-grandes momentos que constituem um filme inesquecível, com muitos diálogos que embora pareçam conversas comuns carregam consigo frases tão marcantes que dificilmente um dia serão esquecidas. O que podia ser banal se torna valioso, mesmo que Coutinho não soubesse o que lhe esperava ao certo, o material final é uma enorme conversa a qual apenas ele saberia conduzir. Quando posiciona seus personagens (ao mesmo tempo objetos de estudo) em frente à câmera, o cineasta nos dá a chance de sermos testemunhas de momentos valiosos que se não tivessem sido filmados, cairiam no esquecimento mas hoje são parte da nossa memória.



A facilidade que o diretor tinha de tornar pequenas conversas algo significativo também é perceptível em obras como Jogo de Cena, em que o dom que Coutinho tinha de escutar o outro e praticar um dos maiores exercícios (se não o maior) de alteridade já visto no cinema, se torna inenarrável. Através de relatos tocantes de diferentes mulheres, de diferentes origens, o diretor manipula uma linha tênue entre ficção e não-ficção e dá àquela pessoa comum, talvez até distante do mundo da arte, a chance de se colocar em evidência da forma mais performática possível - mesmo que não estivesse atuando.


Foi dando total liberdade e emanando compreensão que Eduardo Coutinho encheu a tela de desejos, medos, frustrações e alegrias de mulheres completamente diferentes e com histórias de vida igualmente valiosas pelas suas formas de narrá-las. O quanto de ficção existe no Cinema de Coutinho? O quanto de não-ficção existe em Jogo de Cena, em Edifício Master? Não se sabe. A fórmula inexiste, não tem receita. É o Cinema dos detalhes, o cineasta dos pequenos-grandes momentos que pincela a vida em tela como quem diz: pessoas comuns e acontecimentos banais podem ser extraordinários - se você olhar bem.


Quem mais poderia pensar que em um edifício de classe média em Copacabana, incrivelmente comum à primeira vista, existiriam histórias tão preciosas e pessoas que dariam um filme tão belo? Sua formação jornalística e sua experiência no cinema levaram Coutinho a ser um dos melhores contadores de história que já tivemos. Suas entrevistas que mais pareciam conversas casuais, tinha o poder de tirar pessoas das suas zonas de conforto e lhes arrancar sentimentos tão genuínos e fluidos como um pensamento que é formulado em tempo real. É de uma preciosidade que pensava que jamais veria novamente, não importa quão vasto o mundo fosse.



Felizmente, não demorou muito tempo para que eu encontrasse um primo de Coutinho na sétima arte. Em um Cinema mais distante (apenas geograficamente), Abbas Kiarostami também é mestre em atenuar a linha entre ficção e não-ficção, evidenciando a beleza que existe no cotidiano e nas mais pequenas coisas. O melhor exemplo disso é o trabalho do diretor em Close-Up, onde o cineasta iraniano consegue transpor para a tela uma situação que, embora curiosa, jamais seria tão interessante se não fosse pelo Cinema. A história de um rapaz processado por fraude por fingir ser um diretor de cinema famoso para uma família abastada até poderia chamar nossa atenção, se ouvíssemos sobre a história um dia, mas dificilmente acabaria sendo um retrato tão sensível e impactante acerca de uma sociedade onde não raro se pune aqueles que têm a audácia de sonhar para escapar.


Assim como Coutinho, Kiarostami também não se incomoda em aparecer no quadro. Na prisão, o diretor conversa com o protagonista pedindo autorização para contar a sua história e filmar seu julgamento. Parecido com a figura de Elizabeth Teixeira em Cabra, Abbas irá transformar seu protagonista, um não-ator, em um personagem que ao mesmo tempo que é seu objeto de estudo, também gera uma espécie de fascínio. Quando Hossain Sabzian está sendo julgado, depõe com tamanha honestidade que apenas a realidade a justifica. Nenhum texto seria capaz de ter o mesmo efeito dramático que a realidade de Hossain tem naquele momento. A força da não-ficção quando contraposta à ficção é extraordinária e tanto Abbas quanto Coutinho sabiam disso muito bem.


O emocionante em filmes como Cabra e Close-Up é justamente a ausência de roteiro a ser seguido, a imprevisibilidade dos acontecimentos e a espontaneidade dos personagens que, antes de tudo, são pessoas com bagagens próprias, em situação de conflito com a sociedade. Sabzian e Teixeira são sujeitos marginalizados socialmente, cuja relevância social foi subjugada, contar suas histórias não é apenas relevante para sublinhar que pessoas comuns carregam histórias memoráveis, mas também funcionam para dar visibilidade a esses grupos sociais que são frequentemente esquecidos. Com um pé no Neorrealismo Italiano, ambos cineastas fazem filmes onde suas câmeras são uma brecha para um mundo que deixamos passar diante dos nossos olhos.



A câmera se torna, assim, o instrumento-meio que nos permite testemunhar momentos extraordinários a partir do comum. Coutinho tinha sua forma particular de conversar com seus personagens e então transpor suas emoções em tela, enquanto Abbas tem sua forma particular de filmar os detalhes e se beneficiar da emoção que estes nos provocam quando dispostos em tela. São cineastas diferentes, mas muito parecidos na maneira como veem o mundo e, principalmente, o outro. Em Cabra, assim como em Close-Up, a palavra de ordem é a alteridade. Afinal, o Cinema também é o exercício de se colocar no local do outro, entender um universo distinto do seu e poder viver mais de uma vida em uma só.


Seja em Dez, Através das Oliveiras ou Gosto de Cereja, mesmo quando Abbas não está lidando com não-atores e histórias reais, ainda assim faz do seu cinema uma manifesto social que se beneficia da beleza dos detalhes cotidianos desse povo. Sua atenção se volta para grupos específicos da sociedade iraniana, e ele trata seus personagens e seus dilemas com muita naturalidade - sempre impactado pelo realismo. É o mesmo que Coutinho faz com grupos específicos da sociedade brasileira, seja com a classe media em Edifício Master ou com trabalhadores rurais do interior do nordeste como em Cabra. São verdadeiros acontecimentos culturais que dão visibilidade para pessoas comuns e grupos sociais marginais, ressaltando o que há de mais valioso nas histórias que o Cinema por tanto tempo ignorou, por achar não ter ninguém interessado em saber - talvez porque não tinha nenhum Coutinho ou Kiarostami que pudesse contá-las.



Para mim, não existe história mirabolante hollywoodiana que se compare às emoções provocadas pelas narrativas mais próximas do real - mas com ressalvas. Pois, assim como não há muita beleza naquilo que é claramente pré-fabricado, reforçado à exaustão, também não há muita beleza naquilo que é completamente não-ficcional. Já diria Coutinho que em uma entrevista muito objetiva (ou em relatos muito diretos), sempre se fala aquilo que o realizador deseja ouvir. O que era verdade, pode virar uma mentira. O ponto é bem no meio, na linha tênue, onde a graça é deixar o interlocutor se perguntar até onde vai o real e até onde vai a ficção. Só para depois descobrir em reflexão que na arte não existe nada completamente real ou ficcional, é tudo e nada ao mesmo tempo.


Encontrar o Cinema de Coutinho foi como estar na companhia de um velho amigo. Reencontrar um pouco de Coutinho em Kiarostami foi como receber um abraço saudoso, de alguém que também vê o mundo de forma parecida. Há beleza no cotidiano e nas pessoas que passam pelas ruas como se fossem invisíveis. É verdade que todos somos um universo de diferentes possibilidades, cuja bagagem só nós mesmos sabemos como nos impacta. Quando alguém se dispõe a contar a história de outrem, deveria ser exatamente como eles propuseram em tela, onde há espaço para julgamentos, apenas para relatar os sentimentos mais profundos que são capazes de mover vidas inteiras, fruto dessa habilidade indiscutível e compartilhada entre ambos em serem, simplesmente, humanos. Pois esse é o Cinema grandioso, aquele formado pelos pequenos acontecimentos, que conta com a imprevisibilidade para construir coisas magníficas e com ocasionalidade do que é impossível adivinhar para fazer o extraordinário. O Cinema como a vida.


 

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