A filosofia existencial e o cinema de Ingmar Bergman

Assim como Alfred Hitchcock foi para o cinema de suspense, Ingmar Bergman foi o mestre do cinema existencial. Mas afinal o que é a filosofia existencialista e como o diretor nordico aborda isso em seus filmes?



O existencialismo


O existencialismo é uma corrente filosófica conhecida por trabalhar os temas da existência humana, como a liberdade e a angústia. Teve início no século XIX, mas se popularizou com os filósofos franceses do século XX.


O existencialismo foi uma doutrina filosófica e um movimento intelectual que teve como grande problemática a existência humana, com foco na experiência do indivíduo que pensa, age e sente. Os filósofos existenciais partiam de diferentes teorias, mas haviam quatro coisas que os aproximavam: a angústia existencial, os problemas sobre o significado, o valor da existência humana e a liberdade.


Sofrendo das influências da fenomenologia (que diz que o mundo só pode ser compreendido da forma como se manifesta, ou seja, como aparece para a consciência humana), uma grande característica do existencialismo é a concepção do absurdo (ausência de propósito), que não há sentido no mundo a ser encontrado além do significado que damos a ele. Ou seja, somos livres para tomar nossas decisões. Para os filósofos existencialistas, a essência humana é construída durante sua experencia de “existência” e de suas escolhas, uma vez que possuimos liberdade incondicional. Em outras palavras, o movimento existencial argumenta que nós seres existentes, somos dotados de toda a responsabilidade por meio de nossas ações. A partir disso, entendemos que somos livres para traçar nossos próprios caminhos, mas condenados a suas variadas consequências e possibilidades.


Apesar destes temas serem debatidos por todos os filósofos existenciais, alguns deles usavam como base de pensamento a religião. Sendo assim, dividindo o existencialismo em duas vertentes:


  • Existencialismo ateu: nega a existência de uma natureza humana.

  • Existencialismo cristão: essência humana corresponde a um atributo de Deus.


Os principais autores do existencialismo são: Søren Kierkegaard, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Friedrich Nietzsche, Maurice Merleau-Ponty e Albert Camus. Mas, para “entendermos” o existencialismo de Bergman precisamos compreender as palavras de três grandes filósofos, Kierkegaard, Martin Heidegger e Nietzsche.



Søren Kierkegaard


Søren Aaybe Kierkegaard foi um filósofo e teólogo dinamarquês, Suas principais obras são: Enten-Eller – Ou isto, ou aquilo – (1843), Temor e Tremor (1843), O Conceito de Angústia (1844) e O Desespero Humano (1849).


Considerado por muitos estudiosos como o pai do existencialismo, Kierkegaard tinha como verdadeiro objetivo determinar o que é a existência humana, à vista disso, suas ideias mais conhecidas são a defesa da verdade subjetiva e a liberdade. Søren era contra qualquer posicionamento racionalista, pois para ele os problemas da existência não poderiam ser solucionados pela razão.


Kierkegaard dizia que “a angústia é a vertigem da liberdade”, logo, ser livre só é possível se possuir angústia, pois é a angústia que direciona o homem no mundo existente. É apenas na angústia que o homem encontra-se com suas inúmeras possibilidades.


Nos conceitos de Kierkegaard, o homem está sempre em desenvolvimento, ou melhor, condenado a vir-a-ser. Afinal, o homem é livre e dotado de capacidade de agir e escolher, entretanto, condenado a ser responsabilizado por essas escolhas.


Para Søren Kierkegaard existem três modos de viver:


  1. Vida estética - onde o homem busca apenas o seu prazer e que nesse modo o egoísmo é exacerbado, a vida do outro não importa.

  2. Vida ética - onde o homem é guiado pelo conceito de certo, errado e justo. Aqui ele desenvolve a preocupação social e o respeito.

  3. Vida religiosa - onde o homem é guiado pela fé, encontrando-se com Deus, elevando portanto seu grau de maturidade. Para ele aqui se encontra a verdadeira liberdade, pois Deus liberta-nos das angústias da vida.



Martin Heidegger


Martin Heidegger foi um filósofo e professor alemão, suas principais obras são: Ser e Tempo (1927), A Carta sobre o Humanismo (1949), Da Pergunta sobre o Ser (1956) e Da Experiência de Pensar (1954).


Mesmo Heidegger negando constantemente ser um existencialista, estudiosos o colocam como um dos principais pensadores. Afinal, seus estudos baseavam-se no “ser” e que suas ideias influenciaram a fenomenologia de Merleau-Ponty e o existencialismo de Sartre. Portanto, o filósofo alemão teve um grande impacto no desenvolvimento da filosofia existencialista por toda a Europa.


Para Heidegger, o método fenomenológico é importantíssimo para a análise da existência, que somente por meio deste método podemos compreender os fenômenos da vivência humana. Segundo o alemão, a principal pergunta da filosofia deve ser sobre a questão do ser, contudo, os filósofos e pensadores em geral estudavam apenas o ente, o que gera um certo mal entendido entre o ser e o ente.


O ente e o ser são palavras conectadas em seus significados, portanto, o ente é determinado pelo ser. De modo geral, o ser é, e o ente é tudo aquilo que está no ser. É da natureza do ser existir, ser o mesmo, mantendo o que era no que será. O ser sempre “era” e “será”.


O ente, logo, é uma incorporação do ser, sendo dotado de uma natureza dúbia, como aquilo que está e é. Em resumo, o ente é o modo de ser, ou seja, tudo aquilo de que falamos, aquilo a que nos referimos e também como nós mesmos somos. Este é um ente que não está definido, que sua essência se confunde com o seu “estar” no mundo. Em virtude disso, Heidegger intitulava o homem como Dasein; de origem alemã significa ser-aí.


O ser humano está jogado às possibilidades da vida, sendo a morte uma delas. Sendo assim, o ser-para-a-morte (como Heidegger chama) é um fato inevitável.


Martin Heidegger dizia que existem três categorias da natureza do ser humano


  1. Ele mesmo é responsável por seus atos

  2. Que o ser humano deve aceitar a realidade da morte

  3. O homem é um ser determinado pelo tempo


Além do mais, dependendo da resposta dessas três categorias o ser humano poderá experimentar duas formas de existência:


  • Existência autêntica - É vivida por aqueles que aceitam essas 3 realidades. Uma vez que entendemos que somos finitos, seremos livres.

  • Existência inautêntica - É vivida por aqueles que não aceitam, sendo assim, abandonadores de sua liberdade de escolha. Seres repletos de angústias.



Friedrich Nietzsche


Friedrich Nietzsche foi um filósofo alemão que viveu no final do século XIX e desafiou os fundamentos do cristianismo e a moralidade tradicional, ele entende o Cristianismo enquanto negação da vida. Ele versava sobre “vontade de potência” e “morte de Deus''.


Por influenciar muitos pensadores existenciais, Nietzsche é considerado por inúmeros pesquisadores um filósofo pré-existencialista. O pensar filosófico é muito próximo do pensar artístico, ou seja, baseando-se na maneira que se observa o mundo. Sendo assim, Friedrich um Ateu fervoroso questionou toda religião, cujo objetivo principal é a proteção de códigos morais contra a mudança, para ele negar a mudança é um ato contra a vida e o bem estar de homens eficientes.


Friedrich Nietzsche ponderava sobre a ideia de verdade e de objetividade, observando na verdade uma maneira de criação. Além do mais, dizia que o ser humano deveria construir sua própria personalidade e fazê-lo sem depender de qualquer coisa que transcendia a vida.


Nietzsche era muito severo em seus posicionamentos, para ele o ser humano é por natureza um ser dominante, portanto deveriam rejeitar toda forma de religião — pois tais ideias e conceitos controlam o ser humano. Nietzsche acreditava que as pessoas deveriam retornar ao instinto primário.



Ingmar Bergman


Um grande adorador das angústias da alma humana, o artista sueco, nascido no dia 14 de julho de 1918, foi um importante autor para cinema europeu da metade do século XX. Bergman foi um dos idealizadores do cinema como arte “pensante” com um valor puramente reflexivo.


O cineasta nasceu em Uppsala. Ele era o filho do meio de Erik Bergman, um pastor luterano que, de acordo com Ingmar, dentro de casa era um monstro frio, rígido e violento. E diante disso, mesmo passando sua infância inteira presenciando cerimônias cristãs, Bergman criou desgosto pela religião e a raiva estimulou a criatividade e imaginação do diretor. Utilizando de sua arte para expressar-se Bergman demonstra essa relação paternal no filme Fanny e Alexander — obra autobiográfica que demonstra as angústias causadas pela vida estética do seu pai. Sofrendo dessas angústias do passado ele começava a pensar a sua arte, e se absorvendo dos ideias (inconscientemente) Nietzschianos, Bergman criticou a religião em muitas de suas obras — questionando sempre os valores morais da família e os desejos carnais.


Mas foi ao falar do embate entre vida e morte, e a ausência de um Deus em O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, que Bergman apresentou de fato o seu cinema existencial. Baseando-se em filósofos como Nietzsche e Heidegger, o autor diz nessas obras que o homem deve aceitar a realidade da morte e que, apenas assim, seremos verdadeiramente livres, diferentemente do que pregava o filósofo cristão Kierkegaard. Além do mais, em O Sétimo Selo, o autor cria uma das cenas mais icônicas do cinema — o embate milenar entre o homem e a morte, duelando em um jogo de xadrez. Os personagens de Bergman em sua maioria vivem vidas inautênticas, que como vimos pelas palavras de Heidegger, não aceitam a efemeridade da vida.


Em Morangos Silvestres, por exemplo, nos deparamos com Victor Sjöström no papel de um médico idoso, imodesto e frio que será homenageado por sua grande carreira. No longa vemos, através das lentes imagéticas de Bergman, um existencialismo puramente inautêntico, onde o protagonista se debruça em delírios do passado, arrependendo-se de seus atos e rejeitando o fato de que um dia irá partir. Bergman é um autor que força o telespectador sair de sua zona de conforto, ele confronta-nos a um mundo pensante, e assim como um bom filósofo nos instiga a questionar a vida, o ser e o existir. Seus filmes tocam nas feridas insanáveis da humanidade, como a busca por sentido em existir, na experiência humana e o fardo da mortalidade.


O cineasta, um grande maestro do uso de contrastes de luz e sombra, tem como sua maior característica o uso dos close-ups, pois que maneira melhor de apresentar as angústias da alma se não por um olhar vazio e\ou profundo? E foi com sua câmera estática em Persona que o diretor usa da filosofia de Kierkegaard para falar da constante busca do vir-a-ser do ser humano — onde nos maravilhamos com a magnífica Liv Ullmann e a talentosa Bibi Andersson em um debate bastante filosófico sobre o ser e o estar. Além de mostrar como o ser humano adoece por conta das influências do mundo externo. Ou seja, das angústias geradas quando suas crenças são questionadas.


Viajando por um cinema surrealista, Bergman em A hora do lobo apresenta um pintor e sua esposa que mais uma vez transbordando em angústias do passado encontram-se com um grupo de pessoas misteriosas que atormentam ainda mais o casal. A hora do lobo é um filme que fala muito sobre a questão do Vir-a-ser, afinal, o pintor busca ser algo em alguma coisa (fenomenologia), tenta encontrar-se com o seu eu artístico mais uma vez.


Saindo um pouco do existencialismo, Bergman foi um verdadeiro filósofo (sem mesmo perceber), pois antes das pesquisas de Bauman, Bergman já abordava sobre o amor líquido em Cenas de um casamento e as complexidades de um relacionamento — é interessante observar como ele trata tais relações humanas sempre em confronto com o cristianismo.


Por fim, a quem diga que Ingmar Bergman seguiu seus pensamentos existenciais até a sua aposentadoria em 2003, com 85 anos. Mas a verdade é que Bergman nunca deixou de ser um "filósofo" existencial, nem mesmo em seu fim, no ano de 2007 onde morreu sozinho em sua ilha aos 89 anos.