A Esposa Solitária - O Espaço como articulação do romanesco

O tédio, a paixão e as relações da classe-média indiana na obra de Satyajit Ray



Eu adoro fazer listas. De álbuns que quero ouvir, de livros que planejo ler, de filmes que pretendo ver; me ajuda a sintetizar temas, assuntos e obras e analisá-los. Listas, entre muitas coisas, evidenciam preferências que dialogam diretamente com os interesses e reflexões pessoais de cada um, revelando fragmentos da nossa identidade que fazem parte de um determinado ciclo nas nossas vidas, seja para lembrá-lo de uma pesquisa ou de como era seu gosto. “Fazer listas de preferência, à hora do chá, entre amigos, é um jogo de salão agradável e que só depende da nossa disposição no momento”[1], dizia Rohmer.


Mas as listas de favoritos sempre são as mais queridas, as mais prazerosas de se fazer. Surgem direto do coração no momento em que relembramos a sensação do primeiro contato, e essa sensação não desaparece no segundo, terceiro ou quarto contato, pelo contrário: passa a viver conosco. Atinge diretamente o âmago, irrompe da pele, arrepia os pelos da nuca; é inexplicável, inefável. Mas existe um, dois, três ou quatro outros que também queremos colocar nessa lista. O que fazer? Dispensamos uns, inserimos mais alguns, geralmente aqueles que temos mais carinho e apreço, que cultivamos ligações irracionais e conexões muito pessoais para ser justificada. E superamos outros, o que não faz mais parte de você, mas que um dia lhe significou muito, deixado para lá por quaisquer motivos. Ao fim, você aprende mais sobre si mesmo e sua relação com suas paixões particulares que, afinal, definem, um pouco que seja, quem somos.


Digo isso porque aprendi um pouco sobre mim nesse gostoso exercício de listar meus filmes queridos que fazem parte deste momento da minha vida — mesmo sabendo que possa mudar daqui uma semana ou um mês, acontece. Compreendi meus rituais particulares, as semelhanças e diferenças entre as escolhas e, principalmente, a relação fascinantemente misteriosa que liga uns aos outros de alguma forma.


Um destes belos filmes que me arrematou recentemente se chama A Esposa Solitária (Charulata, 1964) e foi realizado por um dos mais belos diretores (uma relação de favoritismo quase impossível de dissociar), Satyajit Ray, que é, como eu, um amante do filme (“O único filme que eu faria do mesmo jeito, se tivesse de fazê-lo de novo, seria Charulata”[2]).


É logo na primeira sequência do filme que se percebe como a delicadeza de Ray, algo que percorre toda sua obra, integra o olhar de Charu, a esposa solitária: as mãos bordam um lenço quando os sinos tocam distantemente, ela ordena ao empregado que prepare o chá para o marido; folheia as páginas de um livro, passeia pelos cômodos da mansão em que vive, percorre os dedos pelos livros da estante, folheia outro livro qualquer e é distraída por barulhos vindos de fora. Curiosa, pega seus pequenos binóculos à procura da origem dos sons do cotidiano, da vida além daquelas paredes. Ela ouve o marido se aproximar, mas ele passa uma e outra vez sem perceber sua presença.


Bhupati, o marido, um intelectual interessadíssimo nas tensões políticas de seu país, se divide entre a esposa e o jornal (para ele, rivais de sua atenção). Consciente da falta que faz na vida dela, Bhupati convida seu cunhado, irmão de Charu, e sua mulher; ele para trabalhar no jornal, ela para que faça companhia à Charu. Nada muda. E como uma anunciação, surgindo da ventania, irrompe Amal, o Primo Basílio desta história, um advogado e literato, sensível e atencioso, que logo recebe os sorrisos e olhares de Charu. Bhupati concede-lhe uma tarefa: que faça companhia à esposa e estimule sua inclinação à literatura.



Satyajit Ray frequentemente subjuga a câmera ao olhar de Charu: acompanhamos suas deambulações, desvendamos seu semblante e testemunhamos seus olhares. O tédio de Charu, essa mulher de elite diante do sentimento proibido, decorre do jogo romanesco entre Amal e Charu, que precisam enfrentar seus sentimentos sem revelá-los de fato. Os pequenos momentos do cotidiano passam a fazer mais sentido para ela, as discussões e provocações com Amal refletem progressivamente essa paixão recíproca que fervilha, mas que nunca é concretizada de fato, mas que vai se tornando mais difícil de se esconder; eles percebem como esse sentimento está fadado à uma inevitável tragédia.



E o realizador deste belo filme é Satyajit Ray, cujo contato com a elite intelectual indiana — seu pai era poeta e escritor, e o pai de seu pai havia sido um notável compositor, pintor e escritor —, afluiu e instigou uma investigação ontológica sobre seu cinema. Essa magnitude se dá desde a trilogia Apu (A Canção da Estrada [Pather Panchali, 1955], O Invencível [Aparajito, 1956] e O Mundo de Apu [Apur Sansar, 1959]) — levado pelo que viu de De Sica (Ladrões de Bicicleta) em sua viagem a Londres antes de decidir virar um cineasta —, passando pelo profundo interesse no espaço-tempo cênico em A Sala de Música [Jalsaghar, 1958], e pelas infusões romanescas em A Deusa [Devi, 1960] e Mahanagar (1963) nos anos sessenta, e se intensificando vigorosamente até alcançar O Estranho (Agantuk, 1991), seu último filme e onde essa afluência encontra o ápice da maturidade.


Mas se em A Sala de Música, Ray resolveu filmar o tempo, o espaço e a inspiração (capturar o fascínio pelo abstrato), digo que a irrupção romanesca de A Esposa Solitária concedeu-lhe uma substância única para que pudesse aperfeiçoar a existência desse abstrato de forma mais explosivamente contida. A influência do poeta e compositor bengali Rabindranath Tagore (A Esposa Solitária é baseado em sua novela, Nashtanir) é mediado com o aceno a Jean Renoir, que inspirou Ray desde que se encontraram durante a rodagem de O Rio Sagrado (The River, 1951), filme que se vislumbra em A Esposa Solitária (existe evidência mais pura que a sequência do balanço?) — naturalmente, respingando em Mizoguchi (de Contos da Lua Vaga [Ugetsu, 1953]) e Rossellini (de Viagem à Italia [Viaggio in Italia, 1954]).



No caso de A Esposa Solitária, Satyajit Ray encontra a parcimônia pelo eixo na composição dos planos, que são ligados ao trabalho da câmera em construir a opulência do espaço enquanto seus personagens circulam por ele, fazendo com que o espiritual/sentimental habite dentro do realismo, ou seja, permite que a paixão exista puramente nas entrelinhas, nos olhares, nos sorrisos, nas provocações entre Charu e Amal para que surja diferentes momentos de irrupção e repressão de seus sentimentos, se edificando em ritmos e velocidades, intensidades e ponderações meditativas — a sequência de imagens que invadem a cabeça de Charu em seu momento de inspiração.


É modular, sintético: no balanço, os pés empurrando o chão, Charu canta, sonhadora.


Esse acúmulo, então, é ornado pelo peso do sentimento de cada ser presente em cena até alcançar a explosão: quando recebe uma carta de Amal, que decidiu se distanciar dela depois de tomar consciência da dimensão da tragédia, Charu desmorona (a ventania que rompe a janela parece lembrá-la daquela que trouxe Amal) e Bhupati testemunha suas lágrimas; o segredo foi revelado sem nenhuma palavra.


É o que leva, talvez, a um dos mais belos finais de um filme: o reencontro de Charu com Bhupati é selado por um freeze frame, petrificando o instante em que as mãos vão se tocar. Se há ou não reconciliação, não importa, o momento é suspenso, elevado à superfície e lapidificado.



“Toda a vida possui um ritmo. Nascimento e morte. Dia e noite. Felicidade e tristeza. Encontros e despedidas. Como as ondas do mar... para cima, para baixo. Um não existe sem o outro.”

— Amal (Soumitra Chatterjee)

[1] Trecho do texto de João Bénard da Costa, tradução de uma citação de Eric Rohmer em seu texto sobre Tabu (Cahiers du cinéma n° 21, março de 1953).

[2]Satyajit Ray em entrevista para a revista Cineaste.


Lista de favoritos do redator

  1. Viagem à Itália | Roberto Rossellini, 1954

  2. Tabu | F. W. Murnau, 1931

  3. A Rua da Vergonha | Kenji Mizoguchi, 1956

  4. The Blackout | Abel Ferrara, 1997

  5. Bang Bang | Andrea Tonacci, 1971

  6. Vertigo | Alfred Hitchcock, 1958

  7. O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro | Glauber Rocha, 1969

  8. O Desprezo | Jean-Luc Godard, 1963

  9. Onde Começa o Inferno | Howard Hawks, 1959

  10. Prelúdio Para Matar | Dario Argento, 1975

  11. Way Down East | D. W. Griffith, 1920

  12. A Noite do Demônio | Jacques Tourneur, 1957

  13. Sem Essa, Aranha | Rogério Sganzerla, 1970

  14. L'Argent | Robert Bresson, 1983

  15. O Raio Verde | Eric Rohmer, 1986

  16. Jeanne Dielman | Chantal Akerman, 1975

  17. Isole di Fuoco | Vittorio de Seta, 1955

  18. Moi, un Noir | Jean Rouch, 1958

  19. Wavelenght | Michael Snow, 1967

  20. A Esposa Solitária | Satyajit Ray, 1964


Esse texto pertence ao nosso especial Favoritos da Cine-Stylo: Uma lista com os filmes prediletos de nossos redatores e 11 textos para discorrer um pouco dessa paixão. Acesse!


 

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