A Colônia (2021)

Na corda bamba entre realidade e ficção o filme só triunfa quando se emaranha com ambos.



Como objeto de estudo, o cinema tende a cair de um lado ou de outro. Mesmo explorando uma literal infinidade de possibilidades narrativas na dicotomia entre documentário e ficção, ambas tendo iguais infinitos de flexibilizações, as duas classificações quase sempre optam pela intercalação. Por exemplo, Apresentando Os Ricardos (Aaron Sorkin, 2021) que transita entre o relato e o encenado. Em A Colônia, filme de Mozart Freire e Virgínia Pinho lançado na 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes, é possível ver a fusão dos dois em um produto que explora a realidade dentro do cinema, enquanto investiga seres humanos e suas histórias, ao mesmo tempo que se preocupa em traçar um elo fictício conivente com a vivência margear de uma comunidade.


Acompanhamos três “protagonistas” tocando suas vidas e, em um emaranhado, vamos conhecendo as histórias reais que cercam Antônio Justa, um bairro oriundo de uma colônia fundada para isolar pacientes com Hanseníase. Acima de tudo ele tenta ser rotineiro em situações ruins, trazendo dramas urbanos como gentrificação, falta de aparelhamento estatal para com o centro médico e até mesmo, em uma perspectiva um pouco mais forçada, a criação de um filho em um ambiente difícil.


Especialmente quando usa do ficcional para extrair algo do real, sinto que o filme é triunfante. Ouvir relatos desatentos de pacientes enquanto são tratados e ver como as memórias operam dentro de uma lógica não contada e sim comentada enriquece muito a obra e, como seu próprio nome provoca, traz à tona o senso de uma comunidade que compartilha uma mesma memória. Todavia, quando se apoia na dualidade e rompe essa proposta ele não funciona tão bem, os relatos ficam a ver navios e o trânsito de seus personagens principais é vazio quando não se preocupa em criar um elo com a colônia e seus satélites.


Em suma, o desenho sua vontade é muito significativo, mas ela só se concretiza em alguns poucos momentos cercados por um ócio narrativo. Uma história espetacular posta para o mundo de uma forma inconstante, por horas explorando a categorização do cinema como palco para chegar à superfície, por horas sendo contada com a voz diretamente apontada para o registro, por horas desinteressada em si e focada nas vidas, nem reais nem irreais, que a cercam.


Nota do crítico:


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Sobre o autor - Davi Alencar


Estudante de Rádio, TV & Internet, produtor de podcasts e aspirante a crítico de cinema vivendo em um fluxo constante de sonho. Editor-chefe, redator e designer na Singular.


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