A Bruxa (2015)

Sem livre-arbítrio, os protagonistas de A Bruxa são escravos do próprio coração



A história de A Bruxa se inicia no momento em que uma família de peregrinos, no início da colonização americana, é banida de seu vilarejo pelas lideranças locais. Durante um bom tempo, na primeira cena, não vemos o rosto do pai da família diretamente, apenas ouvimos sua gravíssima voz e observamos sua silhueta ameaçadora. Pela forma como o cineasta Robert Eggers o retrata, podemos considerá-lo o primeiro “monstro” desse filme de terror. Enquanto o pai é condenado pelos puritanos, a família é, de certo modo, condenada pelo pai, que ocasionou aquele conflito por sua visão teológica dura demais até pros puritanos; ele chega a chamar os líderes da comunidade de “falsos cristãos”. Agora a família inteira está à mercê da soberania divina — o terror de quem compreendeu o pecado, mas não conheceu o amor de Deus.


A estrutura do filme é bastante apertada e todas as cenas encontram um ponto de virada dramático, construindo cuidadosamente o discurso de Eggers. Mas, ao mesmo tempo, é tudo tão auto-contido e frio que temos a sensação de que é um filme solto e, exclusivamente, contemplativo. É, de fato, um filme de muita contemplação, mas também é um filme bastante lógico. Essa oposição é fundamental no trabalho de Eggers, que mistura uma abordagem cuidadosamente naturalista e fiel ao contexto retratado com uma abordagem mais atmosférica e simbólica.


O racional e o irracional estão em choque aqui, como a continência e a incontinência, o controle e o descontrole, a coragem e o medo. Em última instância, é o choque entre o indivíduo que se martiriza na busca pela santidade e o fato de que ele não passa de um pecador impotente, dado à sua própria depravação e sem capacidade de alcançar os céus. A bruxa, o monstro que atormenta tanto o público quanto os personagens do início ao fim da trama, não passa de uma concretização de todos esses choques. A aparição da bruxa naquele lugar inóspito é o fruto desse choque; a bruxa é a síntese de todo o mistério e de toda a tentativa falha de superação dos limites humanos. Quando as personagens se deparam com a bruxa naquela floresta, eles estão se encontrando com nada mais e nada menos do que eles próprios, condenados por seus próprios pecados. Eggers não poderia ser mais pessimista quanto à condição humana.


O pecado de William, o pai, é o ponto de partida da história. Sua doutrina impiedosamente repressiva vem de seu orgulho imenso. Daí também vem suas tentativas desastrosas de ser um patriarca forte e carregar sua família nas costas. As crianças gêmeas, Jonas e Mercy, amam Black Phillip, um demônio em forma de bode, e cantam e dançam de forma aparentemente ingênua em seu louvor, o que já basta para colaborar muito na construção estética do panorama de depravação humana proposto por Eggers. É simples, mas arrepiante a partir de certo ponto. Mesmo assim, uma cena muito reveladora nos oferece um significado mais prático pro pecado dos gêmeos: são duas crianças mimadas que vivem pros seus próprios prazeres. Como Mercy responde a Thomasin, quando esta pergunta por que eles nunca trabalham: “Black Philip disse que eu posso fazer o que eu quiser”.


Katherine, a mãe, é apegada aos seus vínculos afetivos, o que encontra símbolos no finado bebê Sam (e posteriormente em Caleb também), na taça de prata do seu avô e na sua pátria, a Inglaterra (para a qual ela deseja retornar, quando seu sofrimento aumenta). Não é à toa que, no último ato, a bruxa a manipula oferecendo a taça e os seus filhos de volta (ou melhor, ilusões desses bens). O púbere Caleb, por sua vez, vai à ruína graças ao seu desejo sexual, com o qual lutava desde o começo do filme.



Nossa protagonista, Thomasin, por outro lado, não parece ter tantos pecados. Na verdade, ela é uma grande sofredora nas mãos de sua família e é, várias vezes, acusada de ser a bruxa por trás do sofrimento de todos. No final, depois de todos os seus familiares morrerem horrivelmente, ela assina o livro demoníaco de Black Philip e se torna, de fato, uma bruxa. Aqui, vale a pena observar uma interpretação muito comum acerca do arco de Thomasin: a de que tornar-se uma bruxa seria uma forma de empoderamento feminino, uma forma de libertação das repressões puritanas a que sua família estava submetida. Contudo, discordo veementemente dessa interpretação. Ao longo do filme, como busquei demonstrar, os membros da família vão à ruína graças aos próprios pecados, encarnados na forma da bruxa. Todas as personagens têm a santidade como meta e a repressão como método, mas Thomasin não tem muito o que reprimir, exceto sua liberdade. Tornar-se bruxa não pode ser algo positivo num filme que representa a bruxa de forma tão negativa — como um ser pavoroso pro público e símbolo da condenação pessoal de cada personagem.


O filme não traz essa noção da liberdade enquanto pecado por ser machista, de forma alguma. O machismo é uma forma de exaltação da masculinidade e esse filme não a exalta. O filme também não traz essa noção como uma condenação à liberdade, pelo contrário: nosso pavor vem principalmente da falta de liberdade que a bruxa traz! Essa noção essencialmente amoral do pecado (portanto, diferente da visão religiosa) é o cerne do filme: todos os caminhos do coração humano levam à condenação, desde o puritanismo extremo e orgulhoso do pai à ânsia por liberdade de Thomasin.


Nossa protagonista parece feliz no final do filme, mas nós ficamos sem chão, tremendo, porque vimos e sentimos tudo o que a bruxa representa. Não há liberdade alguma em seus caminhos porque ela é a própria tirania do coração. Thomasin deixou de ser uma garota piedosa e amável para se tornar o próprio símbolo da condenação. É aqui que o filme faz sua última grande mistura entre o real e o simbólico. E, por mais bizarro que seja, faz todo o sentido, porque Thomasin já parecia predestinada a se tornar uma bruxa — com tantas acusações e com a sua particular inadequação ao estilo de vida puritano.


Nós vimos a vida daquela família sendo controlada nos mínimos detalhes pela força maligna — desde o bode e o coelho os observando às intervenções mais práticas: a morte chegando a cada um. A bruxa controla a vida daquela família. Todos os eventos estão predestinados. E no fundo, bem no fundo, o que os puritanos também desejam é a liberdade. Liberdade para viverem suas vidas em santa repressão, mas nem isso a bruxa permite. Nesse filme, simplesmente não há brecha para livre-arbítrio! Se ninguém é livre para escolher sua própria forma de aprisionamento, quem dirá de liberdade? Então, nada mais justo (e irônico) do que a protagonista obter sua tão sonhada liberdade pelo meio mais aprisionante possível. A bruxa é tanto a causa quanto o efeito de todos os males.


E o coitadinho do bebê Sam? Ele é a evidência de que até a criança mais ingênua está à mercê da condição humana. Talvez até mais desprotegido do que os adultos.



Eggers articula todos os elementos de sua mise-en-scéne para soarem harmoniosamente sua visão de mundo. Mesmo que não se entenda conscientemente as relações que analisei há pouco, podemos compreendê-las emocionalmente. Podemos tirar as mesmas interpretações que tirei dos símbolos e dos arcos narrativos de qualquer outro elemento do filme. Tudo na forma de uma sensação.


Apesar da existência de muitas cenas em ambientes abertos, a ação dramática sempre se desenrola em tons acinzentados, com grande parte do campo visual desfocado e os rostos das personagens bastante sombreados. Tudo isso cria a sensação de que o céu está nublado durante o filme inteiro. Por meio de uma fotografia cheia de artifícios, mas que não distorce em nada a realidade diegética, chegamos a uma espécie de melancolia que nos relembra os limites materiais do ser humano. Se um céu com algumas poucas nuvens brancas inspira liberdade, a percepção fotográfica de um céu nublado nos faz experimentar o enclausuramento, mesmo que em ambientes abertos.


Ainda que o diretor use muitos planos abertos, nossa visão dos elementos cênicos, incluindo os envolvidos na ação principal, costuma ser bem limitada. Por exemplo, na sequência terrivelmente angustiante em que a bruxa mata Sam e usa seu corpinho num ritual solitário que não entendemos plenamente, quase não vemos o que se passa. Isso se deve muito à fotografia, que não nos permite ver claramente o ambiente, a ação ou a bruxa. Também se deve muito ao fato de que, entre cada plano, temos um salto temporal que exclui várias etapas do ritual. Com menos de dez minutos de filme, já estamos boquiabertos e transportados para um outro mundo. E estamos em pânico.


A Bruxa é um dos filmes que melhor trabalha a sugestão, a implicitude, reiterando que Eggers realmente precisa de pouco para dar vida às suas ideias de forma exuberante. Ainda que as partes se unam numa totalidade maior do que elas, elas já são enormes e transbordam uma mesma substância. Da fotografia de Jarin Blaschke à música de Mark Korven, todos falam fluentemente a língua de Robert Eggers, desenvolvida sobre o desespero.


 

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