2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) | O ser e a máquina

Tentar explicar “2001” me parece uma tarefa tão complicada quanto encontrar a explicação do que está para “Júpiter e além”. Não procure encontrar isso neste texto.



Tentar “explicar” “2001” me parece uma tarefa tão complicada quanto encontrar a explicação do que está para “Júpiter e além” (sendo este o nome que o ato final do filme recebe). Para começar, pensemos em uma, dentre as diversas rimas que unem os primórdios humanos (os hominídeos no início do filme) ao nosso estágio mais avançado: da primeira ferramenta descoberta pelo humano (que é também uma arma) até a mais avançada delas — o satélite que vem logo em seguida ao osso, em um uso de montagem intelectual genial? Na verdade, Hal 9000 é a ferramenta mais avançada do ser humano no filme de Kubrick. E, mais uma vez, essa ferramenta é utilizada para a brutalidade — complexo como é, além disso, Hal é mais um estágio da evolução primata-homem-máquina, visto que, como é dito na entrevista com os tripulantes à Júpiter, ele é capaz de reproduzir as funções do cérebro humano; e fica evidente o que surge dessa capacidade de mimicar a mente: o orgulho.


Da luta por dominação dos primatas à máquina mais evoluída inventada pelo homem moderno, o orgulho e, com ele, a brutalidade, a violência, permeiam as ações humanas desde seu primórdio, como que num determinismo que vem de nossa imperfeita natureza. Porém, apesar de todo nosso orgulho, toda nossa capacidade de expansão e busca por dominação, todas as avançadas ferramentas construídas pela humanidade, diante de nossa pequeneza somos incapazes de compreender o que existe para Júpiter e além. É isso que dá início à sequência mais fantástica e experimental do filme, aquela em que o olho de David viaja junto a ele por composições altamente abstratas. Essa nossa incapacidade de compreensão está presente também desde os primórdios — o misterioso monólito que causa medo e curiosidade tanto nos hominídeos primitivos como nos humanos modernos.


Mas, falemos mais dos olhos de David. Estes que são, como olhos humanos, incapazes de compreender o que se desenrola além das seguras fronteiras da humanidade na imensidão do universo. Não atoa, ao chegar ao salão antigo nos minutos finais, David, envelhecido, tem seus olhos em choque. Nesse salão, inclusive, mais uma vez passado e presente entram em choque. Entretanto, após sua experiência transcendental, David, ao envelhecer, teria conseguido morrer em paz com a falta de entendimento diante do monólito? Não sei. Sinto que qualquer tentativa de “explicar” certas alegorias nos momentos finais do filme é um esforço em vão, ou, então, que eu não consigo realizar.



Porém, agora, quero adentrar mais a fundo em como Kubrick substitui esse nosso olhar imperfeito, incapaz da compreensão, pelo olhar do último estágio da evolução humana: a máquina. A câmera, talvez uma última esperança de ferramenta que não leve à brutalidade (por ser, aqui, uma técnica à serviço do olhar sensível e apaziguador da arte), substitui nosso olho ao propor diferentes perspectivas, diferentes olhares, que se manifestam nas inventivas e diversas escolhas de decupagem por Stanley Kubrick. Vemos pontos de vista de personagens diferentes (até mesmo um POV da A.I Hal), momentos de uma câmera mais livre e que se permite olhar em ângulos mais radicais como contra-zenitais, ao mesmo tempo que, depois, voltamos ao olhar mais sóbrio e distanciado, até mesmo frio, calculado, da câmera — olhar este que predomina na maior parte do filme. A questão é que, ao tornar nosso olhar para a ação do filme um olhar calculado e distanciado, como o olhar de uma máquina, amplia-se a nossa capacidade de compreensão do que vemos diante de nós. Ainda assim, jamais poderemos entender. “2001: Uma Odisseia no Espaço” nos lembra que, mesmo em nossa aparente elegância e soberba, seremos sempre macacos assustados diante de nossa pequeneza.


Encontramos uma vida extraterrestre ao fim do filme? Maior que um planeta, estranha para a mente humana e que já fez — e seguirá fazendo — “explicadores” perderem a cabeça e terminarem como David quando chega ao salão antigo: com os olhos esbugalhados e cabelos de pé, cansados de buscar uma resposta. O entendimento é muito pouco para a imensidão do vazio, para o que surge diante de nossos olhos após cruzar-se a órbita de Júpiter e além.


Nota do crítico:


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