À Prova de Morte (2007)

Com a sua paixão pelo cinema na ponta da caneta, Tarantino cria um expoente dentro do gênero sem a presunção de reinventá-lo.



A partir da efervescência proposta por Grindhouse, projeto realizado por Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, À Prova de Morte nasce como um filme voltado a reacender a estética trash televisiva e explorar um mundo de referências em uma narrativa nada usual. Ainda assim, ele acha um meio termo entre saber caminhar com sua própria ideia e um bom bocado de influências diversas de filmes do gênero enquanto dialoga com os maneirismos e forma tão característicos de seu diretor, o próprio Tarantino.


Seu apreço pelo horror trash, muito estereotipado e até mesmo fetichizado, é a força motriz do filme. O roteiro, assim como o de suas fontes, não se preocupa em criar uma história com começo, meio e fim nos modelos habituais de cinema que fecha arcos, ensina uma lição ou meramente se conclui. Na realidade, no que tange sua inspiração, ele se atém a emular a cinematografia da ação com doses cavalares de clichês e, no que diz respeito ao seu acréscimo nesse compilado, dá para as personagens uma construção única, unindo a verborragia desse despejar de influências, nomes de filmes, atores, diretores e afins com como ela é entregue através das mesmas.


Eu sempre achei que o Tarantino encontrava em suas personagens a voz que ele não tinha para apresentar suas opiniões ao público, mas À Prova de Morte me fez pensar diferente: a paixão que tem por cinema é tão grande que usá-lo como um mero intermediário seria um baita desrespeito. Então, todas essas voltas que dá com os diálogos são, na ótica mais apaixonada, um estudo de criação de personagens dos mais refinados. Pensando que o filme é o que nos é apresentado na delimitação da diegese e não há um universo a partir dele, sua única preocupação é construir ao máximo qualidades e interesses que influenciam nos recortes que traz à tela.


Ou seja, ao invés de apostar em uma construção na completude que, ante a complexidade do caráter humano, vai ser sempre superficial, ele se aprofunda em um lado específico e, de um jeito muito mais criativo do que uma simples entrega verbal, ele dá uma volta para revelar esse ser para o espectador. Exemplificando dentro do filme, não precisamos saber mais sobre Kim e Zoe fora o simples fato de que gostam de filmes antigos de carros para acompanhar o desenrolar da trama. Nesse breve desenvolvimento elas falam sobre quais obras assistiam e por que são diferenciadas e nós, do lado de fora, vemos essas informações baterem com o gosto por ação e até pelo ofício de dublês que ocupam.


Assim como a história não necessariamente precisa seguir um propósito, as personagens também não. Elas são sim superficiais em muitos particulares, mas para os propósitos do filme são muito mais complexas e profundas do que seriam se tivessem uma construção clássica e formular para serem inseridas somente depois. Essa é a mágica, procurar substância em seres que operam como dispositivos e acreditar tanto na seriedade do gênero, confiando e caindo de cabeça em suas particularidades, que nesse caso pode ser o gore, a sensualidade ou até mesmo a ação com dublês, ao ponto que se torna um expoente que o integra ao invés de, em uma proposta atual, tentar reinventá-lo como algo mais sóbrio.


Engraçado que, e aqui rompo toda minha distância como autor, minhas palavras finais foram muito diferentes do que pretendia ao digitar os primeiros caracteres desse texto. Poucos são os filmes que crescem constante e progressivamente a cada assistida, mas em número muito menor são aqueles que crescem a cada pensamento. À Prova de Morte é um exemplo desses. Metalinguístico do começo ao fim, seja pelo ruído, engasgadas de filme ou até pela luta entre profissionais da área, não só homenageia o cinema como também sabe fazê-lo muito bem.


Nota do crítico:


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