Embarque (2020)

Um conto de verão que não busca respostas óbvias e ultrapassa a tela, dando à quem assiste um pouco da brisa interiorana francesa pela qual é apaixonado.



A relação do espectador com o cinema pode ser muito reativa. Ao vermos na tela tanto dores quanto prazeres é normal que o subconsciente seja apossado de uma amálgama de sentimentos que o consciente tenta descrever como amor, alegria, raiva, esperança e etc. Para a maioria dos filmes é como uma partida de tênis: o diretor saca sua mise-en-scène e o espectador a rebate com sua resposta emotiva, seja ela materializada em forma de comentário, crítica ou opinião ou não. E há algo muito mágico nesse intercurso, mas um seleto número de filmes transpassa essa barreira entre a diegese do universo registrado na película e a realidade e, não satisfeito com nossa reação, se apossa da nossa sensação.


À l’abordage! de Guillaume Brac é um expoente do segundo caso. Com um enredo tão simples quanto divertido, a narrativa se desenvolve a partir dos detalhes e aleatoriedades de vidas dispostas além de um roteiro. Pouco se interessa em utilizar seus recursos para impressionar como filme, muito pelo contrário, dispõe sua linguagem para funcionar como uma ode à vida real, à beleza que existe em se permitir e aos pequenos acasos transformadores.


Acompanhamos o percurso de três jovens: dois amigos, Chérif e Félix, indo acampar para que um deles surpreenda a moça pela qual está interessado, Alma, e um desconhecido, Édouard, que conhecem através de um aplicativo de carona. O carro quebra, são forçados a acampar juntos e, a partir de então, cada um acaba embarcando em sua própria jornada de novas descobertas. Brac explora esses personagens como ninguém, sem delimita-los em uma linha reta, mas sim surpreendendo a todos, seja dentro ou fora do filme, com novos lados que sequer cogitariam em ter.



Félix, galante e confiante, é surpreendido com a repulsa de sua paixão. Chérif, racional e meigo, caí de paraquedas em uma relação inesperada com uma mulher casada. Édouard, mauricinho e mimado, encontra nas atividades mais simples a oportunidade de desfrutar os nuances da independência. Todos caminhos são frutos de suas novas vivências e, como insistentemente fundamento logo acima, nos dão a experiência de sentir como aqueles personagens, não por aqueles personagens e há uma grande diferença aí. Não são o canal, um meio pelo qual se passa uma mensagem, mas sim o receptor, abraçando e reagindo às surpresas assim como quem se prostra do outro lado da tela.


Tal produto é o resultado da soma dessa essência pulsante com um uso muito refinado dos recursos audiovisuais. A câmera, assim como sua movimentação, é extremamente suave, mas mesmo com essa sutileza, não deixa de ser profunda. Em suma, mostra tanto as aventuras quanto as desventuras com três elementos muito simples de linguagem: o plano, o som e a panorâmica. Os dois primeiros se encarregam de compartilhar a vivacidade do ambiente e isso não é só cinematograficamente rico como também prazeroso de acompanhar. Édouard e Félix trocam uma conversa de elevador enquanto repousam no topo da montanha após sua subida de bicicleta, em um momento de silêncio, sem falas, a brisa e os sons do campo se apossam da cena. O plano estático se torna dinâmico com o movimento provocado pelo vento, a atmosfera criada pelos efeitos sonoros e o olhar contemplativo das personagens que bradam "é lindo" e "magnífico", nos permitindo sentir a paisagem sem sequer olhar para ela. A real beleza não está em contemplar uma vista bonita e sim em saber apreciar seu entorno e momento.


Por sua vez, a panorâmica é o agente revelador, o que traz as boas novas e gera esse malabarismo de relações. Interessante notar que, em determinados momentos, quando um personagem entra em cena, há seu uso para introduzi-lo de uma forma menos abrupta. É como se apresentasse seu novo assunto e quem vai interagir com ele ou vice-versa. Isso é visível na cena em que citei logo menos, a câmera segue Édouard enquanto ele se senta ao lado do novo amigo, mas também acontece em vários outros momentos significativos, como quando Alma aparece no café e Félix chama Chérif para ir embora. Todavia, é em um momento específico que esse recurso mais impressiona.



O casal, ainda promissor nessa altura da trama, está interagindo no rio e a câmera registra de longe. Aos poucos ela vai se virando, passeia pela paisagem e encontra Chérif e Édouard atrás das grades do camping observando a situação. Eles adentram a cena não só distantes de seu assunto, mas enjaulados nele. Ambos comentam o fracasso com as mulheres enquanto esticam o pescoço para bisbilhotar o desenrolar do amigo e, mais uma vez, não é preciso acompanhar o foco de sua atenção já que aquele momento e sua riqueza de detalhes tanto implícitos na formação do quadro quanto explícitos no diálogo é o centro da sequência. Esse movimento de um lado para o outro é revelador, ao apresentar um acontecimento para as personagens, e provocador, delimitando uma barreira entre eles e esse mundo de sedução, restringindo-os a observar à distância.


Aplicando e redobrando tais recursos, Brac faz um filme que inspira o sentir e incita o interagir. Interessado no sentimento do espectador ante as reações em cena, tanto para o ambiente que os rodeia quanto para as novidades que adentram seu mundo, o diretor alcança um nível de imersão muito poderoso. Não te deixa feliz por Édouard se descobrir na vida adulta e sim sentir sua felicidade em cada novo ato até então desconhecido. Não te faz suspirar com Chérif em sua paixão repentina, te apaixona tão rápido quanto ele. Não te relaxa vendo Félix desfrutar da brisa das altas altitudes francesas, te faz senti-la.


Se figurar nessa categoria de provocadores de sensações ainda lhe for insuficiente, dá para dizer que a única reação que provoca é incitar que busquemos vida fora dos cinemas. À l’abordage!, mesmo que leve, é provocante ao exalar otimismo e reafirmar que, assim como o rio de sua locação, não há nada imutável. No fim, a correnteza do amanhã sempre tem algo novo para oferecer e a grande mágica, nesse caso, está em nos fazer querer descobrir o que nos espera no próximo corte da realidade.


Nota do crítico:


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